Pequeno clipping de um vídeo que acabei de ver:
http://br.video.yahoo.com/watch/8514015/22805578
O jeitão das ruas é aquele mesmo. Parece especialmente com o que vi no Rajastão.
Visita de 3 meses à Índia para estudo de campo, e aproveitando para conhecer o país.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Mairon vai ao Ganges - Parte 2: Indo ao rio
Pronto, 22 de outubro estava ali, o aniversário havia chegado. Este foi um bem exótico, afinal não é sempre que se está num lugar como Varanasi. Pra começar, eu quis fazer o passeio de barco à luz do amanhecer no rio - tida como a melhor coisa a se fazer na cidade.
(Já que o tema do post é aniversário, e aproveitando a deixa, feliz aniversário, Vinícius! Muita felicidade pra você, meu velho!)
Às 5:30 lá estava eu, ainda meio sonolento mas já preparado. Os barqueiros, como sempre, são da mesma trupe de golpeia-turistas que habita o setor informal de serviços da Índia. Desta vez tínhamos um indivíduo que atendia pelo nome de Babú. Éramos eu, uma argentina, e um grupo de franceses. Do hotel fomos todos seguindo Babú, que já era um homem de meia idade, e eu queria ver como é que ele ia remar esse povo todo no braço.
Chegando no rio eu descobri. Babú era uma espécie de agenciador (os remadores, depois de certa idade, evoluem para remador manager, que na verdade não rema mais, só delega quem vai remar que grupo e controla a grana). Os coroas franceses bateram o pé querendo ir sozinhos (graças a Deus), então segui só eu e a argentina junto com um dos boys de Babú.
As vistas do rio ao amanhecer são fascinantes. Logo pela manhã já há bastante gente à beira d'água fazendo desde rituais até escovação de dentes.
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| Remadores no Ganges ao amanhecer, em Varanasi |
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| A população vindo ao rio para orar e para se banhar pela manhã, em Varanasi |
Como diz minha amiga Letícia, ali há também uma "bagunça de auras" muito grande, oferenda na água por toda parte... parece a praia de Salvador em noite de ano novo. Mas o pior nem é isso, são as saídas de esgoto que você vê vindo da cidade e despejando no rio (não sei como é que permitem uma coisa dessas num rio que eles têm como sagrado, mas enfim). Entrar naquela água ali estava fora de cogitação (a menos que o bote virasse). Mas havia um outro lugar de que eu havia ouvido falar.
No trem, um homem havia me falado. "Vá para Sangam. Fica a 3h de Varanasi, nas vizinhanças de Allahabad, onde os três rios se encontram. Lá você achará o que procura". Decidi que iria para Sangam.
Voltei do bote de Babú, tomei café com a argentina, e a nós se juntou uma brasileira que nos ouviu conversando (primeiro compatriota que eu achei nessa viagem, depois de mais de 1 mês). Matei a saudade do bom humor latino-americano. Ficamos os três tirando sarro das coisas e falando de lugares interessantes pra visitar.
Finalmente, as duas tinham coisas a fazer, e eu também. Operação Sangam. Peguei o tuk-tuk pra a estação de ônibus. Por sorte de aniversário, esse tio do tuk-tuk foi legal e me botou numa dessas vans lotação em que fica o cara do lado de fora gritando "Quem vai! Quem vai! Bóra, Allahabad saindo agora! Tchalô, tchalô!". Eu jamais teria conseguido o mesmo preço que os indianos na lotação estavam pagando, mas como foi o tuk-tukeiro que negociou pra mim, acabou saindo o mesmo preço do ônibus - e bem mais rápido.
Poucas caras indianas são mais engraçadas do que aquela do cidadão que queria estar se aproveitando de você e, por força da circunstância, não conseguiu. O motorista ficava me olhando com uma mistura de risada e apreensão, de como quem diz: "Pô, esse turista aqui e eu tô deixando passar, não estou faturando nada em cima dele". Hehehe.
A van tinha duas enormes suásticas dos lados do pára-brisa, então me senti num veículo patrulha nazista do tempo da Segunda Guerra. Depois de umas 2:30h no aperto chegamos lá. Ou perto. Me largaram no centro de Allahabad, cidade feia e fedida. Uma zona. De lá peguei um ciclo-riquixá (igual ao tuk-tuk, só que o cara vai pedalando; é usado pra distâncias mais curtas). Cheguei não havia um cara-pálida, só indiano. É um ponto onde se encontram o Rio Ganges, o Rio Yamuna, e o Rio Sarasvati. Extremamente auspicioso. (Mais auspicioso ainda em certos dias a cada 6 anos em que há uma certa conjuntura astral; da última vez, em 2007, nada menos que 70 milhões de pessoas vieram pra cá, a maior aglomeração humana já registrada na história. 2013 tem outro. Você não vai ficar fora dessa, vai?)
Cheguei lá, só que ninguém me disse um detalhe: esse Rio Sarasvati não existe. Quer dizer, ele não está lá; a mitologia é que diz que ele existe. Boa sorte tentando convencer um indiano de que ali só passam 2 rios e não 3. A versão varia, alguns dizem que ele passa no subterrâneo, outros dizem que ele passa no céu, rola de tudo. A versão mais coerente (ao meu ver, mas que o povão indiano não vai concordar) é que era um rio que existiu há milhares de anos atrás, quando os textos sagrados hindus foram escritos, e que desapareceu. Há uns estudos indicando registros geológicos disso). Mas pra todos os efeitos, ali, três rios.
Veio um velho me oferecer barco. O negócio é ir lá pra o meião, onde as águas se misturam. "350 rúpias!". O outro velho do lado, "500!". (Depois eu me liguei que o velho do lado fica repetindo '500' só pra eu achar que 350 está barato. Na realidade ambos os preços são um roubo).
"Eu paguei 100 rúpias no Ganges hoje de manhã, meu tio! Você quer me cobrar 300 aqui?"
"Um rio, 100 rúpias; três rios, 300 rúpias"
Desconta o fato que um só existe no mito, né.
"O preço aí é 100 rúpias, não vou lhe pagar 300 não"
"OK, 100 rúpias pra ir"
"E eu por acaso vou ficar no meio do rio, meu tio?"
"Pra voltar, outras 100"
Vi que não ia conseguir muito além disso. Vamos lá, 200 rúpias. Novamente, não era o velho que remava. Ele chamou um rapaz lá que encasquetou que eu entendia hindi e ficou me dando explicações em hindi. Daqui a pouco vai querer cobrar por explicações que eu não entendi.
A água nesse lugar era melhor, embora não fosse fantástica. Pelo menos não dava nojo. No meio do rio, atracamos o barco a um outro onde estava um sacerdote. Operação a ser cumprida: tomar bênção de aniversário lá no lugar auspicioso. Simbologia bonita. Incluiu a reza de um mantra que ele dizia e eu repetia, derramar leite com pétalas no rio, e comer um bombom de amendoim. Oferendas com pétalas de flores a serem deixadas para a água levar, junto com pedidos, etc. O banho foi de gato, com os pés pra fora do barco e a mão pegando água. Eu não me joguei no rio. Por outro lado, o ritual inclui beber daquela água. Hehe, muito mais hardcore. Não tinha como dizer na cara do sacerdote "Vamos pular essa parte". É certamente a mais auspiciosa de todas. Então vem lá a caneca, que é na verdade uma cumbuca de metal grande, e você toma uns bons três goles cheios. Pronto, estava purificado.
Ia precisar mesmo, pois a volta foi uma loucura. Não tinha van nazista dessa vez, então fui no ônibus público mesmo. Já falei antes do muvucão que são esses ônibus públicos aqui. Esse foi o cúmulo disso, e de quebra ainda foi de noite pois já tinha escurecido. Vai uma lâmpada incandescente amarela no teto do ônibus pra iluminar enquanto ele fazia loucuras na estrada de mão-dupla.
Um senhor gordo estava sentado do meu lado. E ainda era desses assentos em cima da roda, em que tem menos espaço para as pernas. Aff. Mas ele na verdade foi a salvação, pois estava indo pro mesmo lugar que eu. Esse ônibus ia pra um sem-número de lugares, e Deus é que ia saber qual era a parada de Varanasi àquela hora no escuro. Eu estava vendo a hora é de estar à deriva em plena noite de aniversário no coração de Uttar Pradesh.
"Qual cidade você gostou mais, Allahabad ou Varanasi?", me perguntou ele.
Ambas cheiram a banheiro público.
"Não sei, eu não vi muito de Allahabad"
"Varanasi é melhor, muito melhor"
(Os homens indianos frequentemente não têm uma veia democrática muito forte. Não fazem muito o estilo 'cada um tem uma opinião, é questão de gosto', nada disso. Fazem mais o estilo da pessoa que tem uma opinião formada pra tudo, e se você pensar diferente, ele diz que você está errado. Além disso são mandões, adoram tomar a frente das coisas e lhe dizer o que fazer. Às vezes me lembram aqueles homens do Brasil Império ou de novelas de época da Globo do início do século XX).
Ele continuou. "Varanasi é uma cidade muito boa. Excelente cidade".
Santa maria... imagina se não fosse...
Depois de quatro horas de sacolejo no ônibus, chegamos de volta a Varanasi e o tio me apresentou ao lanka-lanka, que nada mais é do que o tuk-tuk lotação. Seria o meu transporte até o hotel.
"Já tá cheio, onde é que eu vou?"
O motorista: "Aqui". Apontou pra o pedaço entre ele próprio e a rua (tuk-tuks não tem porta). Pronto, fui com metade do corpo pra fora. Do lado de dentro uma perna, meia polpa da bunda, e um braço. Isso de noite, no trânsito indiano de mão dupla, deixa adrenalina de montanha-russa no chinelo. A bênção do Ganges foi providencial.
No outro dia segui viagem pra Delhi, e depois de uns dias lá num congresso de energias renováveis, vim para o sul do país. Acabei de chegar, e será meu point este novembro. Começo por Hyderabad, onde estou no momento (vejam ali no mapa). Breve histórias daqui. Por ora, deixo vocês com mais fotos do Ganges em Varanasi.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Mairon vai ao Ganges - Parte 1: Visita à cremação à beira do rio
O Rio Ganges. Um dos mais importantes do mundo. Provavelmente o mais festejado - a ponto de ser considerado um deus pelos hindus. Ou melhor, uma deusa, "Mãe Ganga", e reverenciado como tal. Ao mesmo tempo, um dos afamados rios mais sujos de todo o mundo - dentre aqueles em que as pessoas ainda entram para nadar, é claro.
Varanasi, cidade habitada há 8.000 anos. Competidora com outras no Oriente Médio pelo título de mais antiga habitação humana. Cidade sagrada para os hindus, a ponto de considerarem que morrer aqui é auspicioso - você vai direto para os planos mais altos e sua alma escapa da roda das encarnações. Quem não morre aqui, vem ser cremado aqui, e as cinzas jogadas ao rio. Sempre, dia e noite, as fogueiras queimando os mortos à beira do rio, e os vivos se banhando para se purificar. É como dizem por aqui, Varanasi é a "cidade da vida e da morte".
É pra lá que eu fui. Do deserto até Varanasi nada menos que 30 horas de trem. Aff maria. Pra quem está acompanhando pelo mapinha no blog, fui para o estado de Uttar Pradesh, à direita do Rajastão. Varanasi fica mais ou menos na altura do "e" de "Uttar Pradesh". Eu sei que a curiosidade sobre o Ganges está grande, mas não posso deixar de comentar o trem. Uma sujeira de dar arrepios. Rato dentro dos vagões. O banheiro lembrava umas instalações da guerra fria que eu visitei alguns meses atrás na ex-Alemanha Oriental e na Polônia. Isso porque eu fui de 2a classe (na Índia são 5 classes, agora imagine a suruba que deve ser nas de baixo). E o pior é o povo: na minha frente, o pai botou o menino pra urinar ali mesmo, no ato, e eu só vejo o córrego amarelo na minha direção e da minha mochila (que fica no chão abaixo do assento). Are baba.
Mas de certa forma foi boa preparação para a chegada a Varanasi. Varanasi é a cidade mais imunda que eu já vi na minha vida. Esqueça os padrões do que você acha que é sujo. Aqui esses padrões são rapidamente redefinidos. Você mal sai da estação de trem e já sobe aquele cheiro de fezes (humanas mesmo), vulgo fedor de bosta. Lixo você sai driblando pelas ruas, no meio das cabras, porcos e vacas. E pra piorar, tinha chovido. Aaaaaaare baba.
Meu hotel estava do outro lado da cidade, então tive logo um "city tour" de tuk-tuk. O preço até não foi mal. Hotel decente também. Como já era começo de tarde (daquelas meio nubladas, úmidas, em que o chão está molhado e você não vê o céu direito), fui explorar a cidade a pé e no dia seguinte (aniversário) pegaria o afamado passeio de barco pelo Ganges ao amanhecer. A pé fui pelos ghats, de que Maya falava bastante na novela. Nada mais são que as escadarias que descem até a água do rio. Cada ghat tem um nome e, às vezes, um uso diferente. Entre eles os ghats crematórios, que é onde eu queria ir. Percorri então a "orla" inteira do rio até chegar lá.
Às vezes não dá pra ir de um ghat a outro, porque o rio bate direto no paredão de uma casa, ou porque o lamaçal é demais e não deixa passar. Aí é preciso entrar pelas várias ruelas e becos ali da cidade e contornar. É nessa que você se perde. E eu me perdi.
Nessa a tarde ia caindo, e eu no entra e sai de becos, rodando por ali. Na verdade, é parte da experiência de Varanasi. E, como nos ghats, você vê figuras de todo o tipo: de homens-santos mendicantes (sadhus) vestidos de cor-de-abóbora e com cinzas passadas no corpo, até jovens europeus hippies em viagem. Em alguns lugares você sente em Varanasi a Meca do movimento de contra-cultura dos anos 60 e 70. Não faltam lojas com livros, CDs, pôsteres e qualquer coisa que faça referência a espiritualidade, tratamentos alternativos, yoga, etc. Às vezes a coisa parece séria, outras vezes descamba pra a maconha. Fui oferecido haxixe pelo menos umas 5 vezes na rua.
Mas nessa a fumaça que eu estava vendo era já a das piras funerárias subir. Estava procurando o caminho, aí vem um senhor e diz que vai me mostrar o caminho. "Venha, por aqui". Você já fica meio cismado, mas vai. Lá fui. Entra em beco, sai em beco, chegamos no ghat funerário principal. Lá várias fogueiras queimavam, à beira do rio. Uma construção de pedra escura de seus três andares me separava das fogueiras. Dava pra contornar, mas aí o homem me leva até a entrada desse 'edifício' e fala com mais alguém.
"Ele vai lhe mostrar lá de cima. Depois na volta você dá uma passada na minha loja, tem sedas ótimas". Não respondi nada e subi com o cara. Ele falava um inglês meio decorado, às vezes repetia o que já tinha dito, e tinha dificuldade em responder se você perguntasse. Mas subimos. Lugar escuro, com gente sentada e deitada pelo chão, e a fumaça dos mortos por toda parte. Subimos as escadas e fomos lá pra cima, onde de um parapeito dava pra asssitir a toda a cremação lá embaixo. "Esse cara vai me pedir dinheiro", já pensando eu. Mas, bom, era até justo. Ele foi dando uma explicação de como procede toda a cremação, de que queima por 3h e joga o defunto meio-queimado no rio, que grávidas, crianças e sadhus (os homens-santos de abóbora que eu falei) não são cremados, que quem morreu picado de cobra também não, que só depois de tomar uma bênção do sacerdote, etc e tal. Detalhes alguns até que eu já esqueci, de tantos que são. Lá em cima onde estávamos havia também pessoas no chão, parecendo sem-teto. Uma velha acocorada junto à saída pra a escada e um homem espichado num pano sujo perto de nós. Vi lá embaixo os familiares jogarem muitas oferendas juntos com o defunto (que vai meio que mumificado pra a fogueira, numas ataduras brancas). Vão flores, objetos, e muito pó de madeira de sândalo, usado em incensos (senão ia subir o cheirão de churrasco).
A fumaça já estava me doendo os olhos, e eu já tinha ouvido a explicação toda, então hora de ir embora, a hora dolorosa do pagamento, que é sempre aquela novela porque você dá a mão e eles insistem em querer o seu braço, a perna... Chegamos à saída para a escada, onde estava a velha. E o cara: "Abaixe que ela vai lhe dar uma bênção". Abaixei, a velha pegou minha cabeça, tomei lá a bênção, aíííí sim veio: "Agora você faz a doação pra ela, que toma conta disso aqui e compra madeira pra queimar os sem-teto que morrem". Sei, sei. Levantei, tirei uma nota de 100 rúpias e estendi a ela. Ela já ia pegando, mas aí viu o valor da nota e puxou a mão pra trás, fazendo uma cara de quem tinha cheirado peido. (Ela não falava). Foi aí que o cara me veio dizendo que eu devia dar 50 kg de madeira. "E quanto é isso?", perguntei eu. "7000 rúpias" (~260 reais). Ah, tá bom, já tô dando isso tudo mesmo. Aproveitei que a fumaça já estava nos olhos e fiz o drama. Disse que ele não podia exigir isso de um estudante vindo de outro país em desenvolvimento. Aí ele, que só dava o preço em kgs de madeira, veio: "Se tem emprego, dá X kg de madeira; no job, Y kilos". Vai dar o golpe da madeira em outro, meu tio. No fim das contas ele falou pra a velha aceitar as minhas 100 rúpias, mas insistiu que queria outras 100 rúpias pra ele próprio pela explicação. Heh, sabia. Mas essas eu já tinha preparado, e dei o fora antes que inventassem mais alguma coisa.
Mas saindo, como que cronometrado, estava lá chegando já o cara que me achou nos becos. "Ah! Bem na hora! Venha ver a minha loja!". Putz. Acabei indo com o cara. Aí é sempre aquela história: "Sente, toma um chai?", e vai lhe empurrando a loja inteira. Não é tão mal, o problema é que nessa onda você acaba comprando. O legal foi que, quando eu disse que era do Brasil, ele me mostrou um caderno de visitas assinado pelo Zé de Abreu (que fez o papel do Pândit) e com uma foto nessa mesma loja, do ano passado, quando fizeram as filmagens de Caminho das Índias.
Como a noite já tinha caído, aproveitei pra assistir o ritual que fazem à beira do rio no ghat principal, onde dizem que Brahma, o deus criador, certa vez veio pessoalmente. Fotos abaixo, e no próximo post o dia seguinte, do aniversário, no Ganges propriamente dito.
Varanasi, cidade habitada há 8.000 anos. Competidora com outras no Oriente Médio pelo título de mais antiga habitação humana. Cidade sagrada para os hindus, a ponto de considerarem que morrer aqui é auspicioso - você vai direto para os planos mais altos e sua alma escapa da roda das encarnações. Quem não morre aqui, vem ser cremado aqui, e as cinzas jogadas ao rio. Sempre, dia e noite, as fogueiras queimando os mortos à beira do rio, e os vivos se banhando para se purificar. É como dizem por aqui, Varanasi é a "cidade da vida e da morte".
É pra lá que eu fui. Do deserto até Varanasi nada menos que 30 horas de trem. Aff maria. Pra quem está acompanhando pelo mapinha no blog, fui para o estado de Uttar Pradesh, à direita do Rajastão. Varanasi fica mais ou menos na altura do "e" de "Uttar Pradesh". Eu sei que a curiosidade sobre o Ganges está grande, mas não posso deixar de comentar o trem. Uma sujeira de dar arrepios. Rato dentro dos vagões. O banheiro lembrava umas instalações da guerra fria que eu visitei alguns meses atrás na ex-Alemanha Oriental e na Polônia. Isso porque eu fui de 2a classe (na Índia são 5 classes, agora imagine a suruba que deve ser nas de baixo). E o pior é o povo: na minha frente, o pai botou o menino pra urinar ali mesmo, no ato, e eu só vejo o córrego amarelo na minha direção e da minha mochila (que fica no chão abaixo do assento). Are baba.
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| De dia todos ficam sentados aí. De noite quem é da cama de cima sobe e o dono do assento de baixo se espicha. Há essas cortinas (da foto de cima) pra separar os compartimentos. A farofada rola. Como é ar condicionado, não tem janela. E nem vidro transparente. É esse vidro fumê sujo e pequeno que mal deixa ver o lado de fora. Mal entra luz também, então as lâmpadas vão acesas dentro. Com esse aspecto, você se sente tipo num submarino militar russo ou algo assim. |
Meu hotel estava do outro lado da cidade, então tive logo um "city tour" de tuk-tuk. O preço até não foi mal. Hotel decente também. Como já era começo de tarde (daquelas meio nubladas, úmidas, em que o chão está molhado e você não vê o céu direito), fui explorar a cidade a pé e no dia seguinte (aniversário) pegaria o afamado passeio de barco pelo Ganges ao amanhecer. A pé fui pelos ghats, de que Maya falava bastante na novela. Nada mais são que as escadarias que descem até a água do rio. Cada ghat tem um nome e, às vezes, um uso diferente. Entre eles os ghats crematórios, que é onde eu queria ir. Percorri então a "orla" inteira do rio até chegar lá.
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| A margem do Ganges em Varanasi (a outra margen não tem cidade) |
Nessa a tarde ia caindo, e eu no entra e sai de becos, rodando por ali. Na verdade, é parte da experiência de Varanasi. E, como nos ghats, você vê figuras de todo o tipo: de homens-santos mendicantes (sadhus) vestidos de cor-de-abóbora e com cinzas passadas no corpo, até jovens europeus hippies em viagem. Em alguns lugares você sente em Varanasi a Meca do movimento de contra-cultura dos anos 60 e 70. Não faltam lojas com livros, CDs, pôsteres e qualquer coisa que faça referência a espiritualidade, tratamentos alternativos, yoga, etc. Às vezes a coisa parece séria, outras vezes descamba pra a maconha. Fui oferecido haxixe pelo menos umas 5 vezes na rua.
Mas nessa a fumaça que eu estava vendo era já a das piras funerárias subir. Estava procurando o caminho, aí vem um senhor e diz que vai me mostrar o caminho. "Venha, por aqui". Você já fica meio cismado, mas vai. Lá fui. Entra em beco, sai em beco, chegamos no ghat funerário principal. Lá várias fogueiras queimavam, à beira do rio. Uma construção de pedra escura de seus três andares me separava das fogueiras. Dava pra contornar, mas aí o homem me leva até a entrada desse 'edifício' e fala com mais alguém.
"Ele vai lhe mostrar lá de cima. Depois na volta você dá uma passada na minha loja, tem sedas ótimas". Não respondi nada e subi com o cara. Ele falava um inglês meio decorado, às vezes repetia o que já tinha dito, e tinha dificuldade em responder se você perguntasse. Mas subimos. Lugar escuro, com gente sentada e deitada pelo chão, e a fumaça dos mortos por toda parte. Subimos as escadas e fomos lá pra cima, onde de um parapeito dava pra asssitir a toda a cremação lá embaixo. "Esse cara vai me pedir dinheiro", já pensando eu. Mas, bom, era até justo. Ele foi dando uma explicação de como procede toda a cremação, de que queima por 3h e joga o defunto meio-queimado no rio, que grávidas, crianças e sadhus (os homens-santos de abóbora que eu falei) não são cremados, que quem morreu picado de cobra também não, que só depois de tomar uma bênção do sacerdote, etc e tal. Detalhes alguns até que eu já esqueci, de tantos que são. Lá em cima onde estávamos havia também pessoas no chão, parecendo sem-teto. Uma velha acocorada junto à saída pra a escada e um homem espichado num pano sujo perto de nós. Vi lá embaixo os familiares jogarem muitas oferendas juntos com o defunto (que vai meio que mumificado pra a fogueira, numas ataduras brancas). Vão flores, objetos, e muito pó de madeira de sândalo, usado em incensos (senão ia subir o cheirão de churrasco).
A fumaça já estava me doendo os olhos, e eu já tinha ouvido a explicação toda, então hora de ir embora, a hora dolorosa do pagamento, que é sempre aquela novela porque você dá a mão e eles insistem em querer o seu braço, a perna... Chegamos à saída para a escada, onde estava a velha. E o cara: "Abaixe que ela vai lhe dar uma bênção". Abaixei, a velha pegou minha cabeça, tomei lá a bênção, aíííí sim veio: "Agora você faz a doação pra ela, que toma conta disso aqui e compra madeira pra queimar os sem-teto que morrem". Sei, sei. Levantei, tirei uma nota de 100 rúpias e estendi a ela. Ela já ia pegando, mas aí viu o valor da nota e puxou a mão pra trás, fazendo uma cara de quem tinha cheirado peido. (Ela não falava). Foi aí que o cara me veio dizendo que eu devia dar 50 kg de madeira. "E quanto é isso?", perguntei eu. "7000 rúpias" (~260 reais). Ah, tá bom, já tô dando isso tudo mesmo. Aproveitei que a fumaça já estava nos olhos e fiz o drama. Disse que ele não podia exigir isso de um estudante vindo de outro país em desenvolvimento. Aí ele, que só dava o preço em kgs de madeira, veio: "Se tem emprego, dá X kg de madeira; no job, Y kilos". Vai dar o golpe da madeira em outro, meu tio. No fim das contas ele falou pra a velha aceitar as minhas 100 rúpias, mas insistiu que queria outras 100 rúpias pra ele próprio pela explicação. Heh, sabia. Mas essas eu já tinha preparado, e dei o fora antes que inventassem mais alguma coisa.
Mas saindo, como que cronometrado, estava lá chegando já o cara que me achou nos becos. "Ah! Bem na hora! Venha ver a minha loja!". Putz. Acabei indo com o cara. Aí é sempre aquela história: "Sente, toma um chai?", e vai lhe empurrando a loja inteira. Não é tão mal, o problema é que nessa onda você acaba comprando. O legal foi que, quando eu disse que era do Brasil, ele me mostrou um caderno de visitas assinado pelo Zé de Abreu (que fez o papel do Pândit) e com uma foto nessa mesma loja, do ano passado, quando fizeram as filmagens de Caminho das Índias.
Como a noite já tinha caído, aproveitei pra assistir o ritual que fazem à beira do rio no ghat principal, onde dizem que Brahma, o deus criador, certa vez veio pessoalmente. Fotos abaixo, e no próximo post o dia seguinte, do aniversário, no Ganges propriamente dito.
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| Ghat de cremação à beira do Rio Ganges. Naquele prédio, meio a esquerda com os vãos escuros é que eu estava. |
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| Ghat de cremação à beira do Rio Ganges. Restos mortais e oferendas. |
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| Cerimônia à beira do Ganges, com música, mantra e incenso. |
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| Cerimônia à beira do Ganges. Após o incenso, mantra e movimentos com grandes lampiões e fogo. |
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Mairon no deserto - Parte 2: Três dias no lombo de um camelo
Às 5:20 da manhã eu acordei. Havia chegado o dia. Tudo acertado, às 6h da manhã passava o jipe que ia me pegar numa rua aqui perto do hotel em Jaisalmer. Antes mesmo de o sol nascer, lá fui eu.
Um par de roupas somente - não haveria porque trocar. Nada de banho por três dias. Nada de banheiro.
Fui em minha nova vestimenta branca, comprada nas mãos de Joni e Soni lá em Udaipur. Mangas compridas e calças compridas também, pra evitar o queimar do sol. Pensei em levar turbante também, hehehe (não, vocês não vão me ver de turbante, haha), cheguei a experimentar alguns em algumas lojas, mas em geral eu não gosto de usar nada na minha cabeça, por tanto fui sem. Tenho cabelo suficiente.
No caminho, no jipe, a primeira coisa que fiz foi tirar o relógio do braço. Desliguei o celular - caso funcionasse pois há torres em Jaisalmer. Pronto, estavam cortadas as ligações com o mundo civilizado.
O jipe seguiu por mais de uma hora numa estrada, pra se certificar que estávamos bem embrenhados no deserto. Thar, o deserto daqui, não é como o Saara. Lembra muito mais aqueles desertos da Palestina que a gente vê em filmes de Jesus na época da Páscoa. Terra seca e pedregosa, mato espinhento, arbustos aqui e ali. Em alguns locais, dunas de areia. E eu de barba e de branco caminhando por lá. Pronto, estava feito o cenário pra a história bíblica.
O jipe me deixou no "acampamento", onde havia basicamente uma fogueira o que levaríamos conosco - água, comida, e alguns utensílios básicos, cobertor etc. Havia também os camelos. Os camelos de Thar são na verdade dromedários, com um lombo só nas costas em vez de dois. E eles são ENORMES. As costas deles ficam a dois metros de altura do chão, então você parece que está montado numa girafa.
Jamal, o cameleiro principal, e Armik, seu escudeiro (um garoto de 15 anos) seriam minha companhia pelos próximos dias. Outras agências que organizam isso fazem você ir sentado junto com o cameleiro, pra ter maior segurança. Mas não aqui. Aqui era eu e Deus. No caso, o deus Shiva, que era o nome do camelo que eu peguei. Ledo engano. Minhas mãos ainda estão doloridas e com as cicatrizes de tentar me segurar no lombo de Shiva.
Os primeiros dez minutos em cima do camelo são O cagaço. Você "Pronto, lascou, vou cair daqui de cima". Tem sela mas nenhum lugar firme de segurar. Como você vai na frente do lombo, pra trás você não cai. Por outro lado, capotar pra frente, em cima do pescoço do camelo, é a coisa mais fácil do mundo. E ele arreia sem avisar, ajoelha pra frente e se você não estiver com o corpo todo jogado pra trás, lá vai você. Havia umas sacolas junto da sela, então tentei me agarrar a tudo que pude. Quando o camelo começa a trotar, quem sacoleja é você. É a receita certa para voltar o chai.
Fomos os três deserto adentro, e passamos tanto por áreas isoladas quanto por áreas onde alguns moradores tentavam - e conseguiam - fazer alguma agricultura. Muito parecido com os sertanejos. Havia pastores também. Paramos e visitamos algumas aldeias no caminho, casas muito simples feitas de barro e esterco seco. As paradas eram também uma bênção para as pernas e os quadris inteiros, que depois de horas trotando estão pedindo arrego. Para os homens, sente errado e você vai tomando batida de ovos o caminho inteiro. Para as mulheres, quanto maior o peito deve ser mais difícil, porque o sobe e desce não é mole.
Quando o sol vai chegando ao topo, é hora de parar, pois fica quente demais (e olhe que não é o verão, aqui agora é meio do outono). Nos ajustamos onde haja alguns arbustos ou árvores pequenas que dêem sombra, e ali a gente se assenta. Eu era o único turista, e Armik não falava inglês, então minha conversa toda era com Jamal. Não era um mau sujeito, mas às vezes meio inconstante. Ele implicou que queria o meu celular pra ele, então no primeiro dia eu me senti igual Frodo seguindo viagem na companhia do Gollum: seguindo por áreas inóspitas e acampando guiado por alguém que estava doido por algo seu. "Posso ver um pouco o seu celular?", "Posso pegar?", "Você não troca ele por alguma coisa não?". Are baba.
Após a camelada pós-siesta, no fim do dia dói tudo. Parece que você foi estuprado e que lhe deram uma surra. O suor também lhe encharca, você bebe água igual doido, e a areia vai por toda parte. Nos assentamos, desta vez pra dormir. Tínhamos bons cobertores pra evitar a frieza da noite. Deitar na areia também é confortável (após passado o calor do sol, é claro). Comida simples mas boa, que havíamos trazido. Tudo cozido ali no fogo do acampamento mesmo. A princípio o estômago não queria comer muito - parecia estar vendo que não havia banheiro por perto e não queria pôr pra nada dentro. Hehe, mas não tinha pra onde correr. Não ia passar três dias sem comer ou se ir ao banheiro. Ali, o mundo todo é banheiro à sua disposição. Eu havia levado papel comigo, então o negócio foi ir atrás do arbusto mesmo, hehehe.
À noite o melhor de tudo. A lua brilhava forte jogando sua luz na areia. Melhor ainda, após a lua se pôr no meio da noite, as estrelas ficavam ainda mais claras, e a visão do universo era melhor do que nunca.
No segundo dia levantei cedo, antes mesmo do sol. E o nascer do sol é um outro espetáculo. Tomávamos chai com leite tirado das cabras dali mesmo, e fervido nas especiarias. Mais um dia de camelada. Desta vez eu já estava garantido o suficiente pra tirar a câmera do bolso e ir fotografando de cima do camelo.
Inclusive, troquei de camelo. Fui de Shiva para Al Pacino, um camelo mais experiente e cuja sela dava mais estabilidade. Você começa a se sentir já o Sheik das Arábias, hehehe.
Um par de roupas somente - não haveria porque trocar. Nada de banho por três dias. Nada de banheiro.
Fui em minha nova vestimenta branca, comprada nas mãos de Joni e Soni lá em Udaipur. Mangas compridas e calças compridas também, pra evitar o queimar do sol. Pensei em levar turbante também, hehehe (não, vocês não vão me ver de turbante, haha), cheguei a experimentar alguns em algumas lojas, mas em geral eu não gosto de usar nada na minha cabeça, por tanto fui sem. Tenho cabelo suficiente.
No caminho, no jipe, a primeira coisa que fiz foi tirar o relógio do braço. Desliguei o celular - caso funcionasse pois há torres em Jaisalmer. Pronto, estavam cortadas as ligações com o mundo civilizado.
O jipe seguiu por mais de uma hora numa estrada, pra se certificar que estávamos bem embrenhados no deserto. Thar, o deserto daqui, não é como o Saara. Lembra muito mais aqueles desertos da Palestina que a gente vê em filmes de Jesus na época da Páscoa. Terra seca e pedregosa, mato espinhento, arbustos aqui e ali. Em alguns locais, dunas de areia. E eu de barba e de branco caminhando por lá. Pronto, estava feito o cenário pra a história bíblica.
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| Nascer do sol no Deserto de Thar |
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| O Deserto de Thar |
Jamal, o cameleiro principal, e Armik, seu escudeiro (um garoto de 15 anos) seriam minha companhia pelos próximos dias. Outras agências que organizam isso fazem você ir sentado junto com o cameleiro, pra ter maior segurança. Mas não aqui. Aqui era eu e Deus. No caso, o deus Shiva, que era o nome do camelo que eu peguei. Ledo engano. Minhas mãos ainda estão doloridas e com as cicatrizes de tentar me segurar no lombo de Shiva.
Os primeiros dez minutos em cima do camelo são O cagaço. Você "Pronto, lascou, vou cair daqui de cima". Tem sela mas nenhum lugar firme de segurar. Como você vai na frente do lombo, pra trás você não cai. Por outro lado, capotar pra frente, em cima do pescoço do camelo, é a coisa mais fácil do mundo. E ele arreia sem avisar, ajoelha pra frente e se você não estiver com o corpo todo jogado pra trás, lá vai você. Havia umas sacolas junto da sela, então tentei me agarrar a tudo que pude. Quando o camelo começa a trotar, quem sacoleja é você. É a receita certa para voltar o chai.
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| Jamal (à direita) com um pastor de ovelhas e cabras da região. Atrás, Armik, o escudeiro de Jamal e excelente cozinheiro. |
Quando o sol vai chegando ao topo, é hora de parar, pois fica quente demais (e olhe que não é o verão, aqui agora é meio do outono). Nos ajustamos onde haja alguns arbustos ou árvores pequenas que dêem sombra, e ali a gente se assenta. Eu era o único turista, e Armik não falava inglês, então minha conversa toda era com Jamal. Não era um mau sujeito, mas às vezes meio inconstante. Ele implicou que queria o meu celular pra ele, então no primeiro dia eu me senti igual Frodo seguindo viagem na companhia do Gollum: seguindo por áreas inóspitas e acampando guiado por alguém que estava doido por algo seu. "Posso ver um pouco o seu celular?", "Posso pegar?", "Você não troca ele por alguma coisa não?". Are baba.
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| Dunas de areia no Deserto de Thar |
À noite o melhor de tudo. A lua brilhava forte jogando sua luz na areia. Melhor ainda, após a lua se pôr no meio da noite, as estrelas ficavam ainda mais claras, e a visão do universo era melhor do que nunca.
No segundo dia levantei cedo, antes mesmo do sol. E o nascer do sol é um outro espetáculo. Tomávamos chai com leite tirado das cabras dali mesmo, e fervido nas especiarias. Mais um dia de camelada. Desta vez eu já estava garantido o suficiente pra tirar a câmera do bolso e ir fotografando de cima do camelo.
Inclusive, troquei de camelo. Fui de Shiva para Al Pacino, um camelo mais experiente e cuja sela dava mais estabilidade. Você começa a se sentir já o Sheik das Arábias, hehehe.
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| No deserto. Parecendo personagem de novela espírita da Globo. |
A verdade é que entre andadas pela areia, pela terra pedregosa, e trotadas no lombo do camelo, uma experiência única - dolorida, mas diferente de qualquer passeio mais convencional. Ao final do terceiro dia você está todo quebrado, e as moscas já reconhecem seu suor impregnado. O banho, quando você toma, é quase uma ressurreição de Páscoa, tamanha é a sujeira, o cansaço, e a vontade d´água.
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| Já no terceiro dia |
Água agora é que não vai me faltar. Próximo passo: 30h de trem, de Jaisalmer, a Varanasi, pra me banhar no Ganges no aniversário. Até lá!
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| Al Pacino e o sol. |
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Mairon no deserto - Parte 1: Chegando na região
Ônibus para Jodhpur. Finalmente eu estava rumando ao oeste do Rajastão, ao Grande Deserto de Thar, das caravanas, fortes e camelos. Jodhpur, "a cidade azul", fica às bordas do deserto. É a última cidade de porte antes da aridez começar. No ônibus o caminho me já dava uma prévia do que me aguardava. A poeira subia. Eu passava o dedo na cara e sentia a sujeira. Sentia areia até nos dentes, mastigando poeira. Mas o visual da cidade ao entardecer quando cheguei valeu a pena.
Quando o ônibus chegou a Jodhpur era o cair da tarde. Eu havia dado meu nome ao hotel, que supostamente mandaria alguém pra me buscar. Ainda entrando na cidade, numa das várias paradas antes da final na "rodoviária", já um tuk-tukeiro chegou na janela pelo lado de fora, abordando dois franceses (sentados atrás de mim) e eu: "Eu vou seguir o ônibus de vocês até a parada, e chegando lá levo vocês pra hotel, ok?!". Você vai dizer o que? Na prática não foi uma pergunta, foi um anúncio. Pelo menos a parte do "vou seguir vocês". No caminho dei uma olhadela pra trás pra ver se o ônibus tinha despistado o sujeito. Que nada. Ele me vê e ainda dá um tchauzinho, tipo "Ói eu aqui!". Putz.
Na parada final eu entendi porque ele havia nos abordado com antecipação. Na hora de descer eu me senti uma celebridade. Na boa, tinha uns oito tuk-tukeiros cercando a porta do ônibus. Não tinha espaço nem pra pisar sem tirar eles da frente. E cadê o fulano que era pra vir me pegar? Tudo o que eu vi foi, no meio do tumulto, um dos tuk-tukeiros com um papel escrito AIRONAL. Nem passou pela minha cabeça que esse era eu; normalmente tem várias pessoas sendo esperadas e tuk-tukeiro de sobra querendo dar golpe, então é bom estar bem certo antes de ir com um deles. Mas ele vem falando: "Bréju! Brejú?".
Já sacaram o que é Breju? Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três... Brasil.
Virei Aironal do Breju, prazer.
Passada a gafe, me instalei em Jodhpur por alguns dias. Grande parte da cidade é de fato bem azul. Mas a visão principal tem cor de rocha, é o imponente forte Mehrangarh, que parece ter saído de O Senhor dos Anéis. (Me fez lembrar Helm's Deep, a fortaleza do segundo filme).
O forte data de 1459, quando Jodhpur foi fundada. Visto de perto ele é ENORME, e do alto você vê não só a cidade inteira mas também kilômetros além. O melhor era, ao pôr do sol, uma revoada que sobrevoava sempre o forte e dava uma visão interessante, parecendo mesmo de filme de fantasia ou aventura, de pássaros negros voando à frente do sol poente junto a uma fortaleza. Mehrangarh é talvez a fortaleza mais impressionante que eu já vi.
Jodhpur tinha também, nos arredores, os Jardins de Mandore, uma área verde onde estão vários cenotáfios (monumentos fúnebres erguidos em memória de alguém que morreu, mas sem os restos mortais estarem lá, por isso não são tumbas) de toda a linhagem do marajá da região. O visual novamente lembra filmes e jogos de aventura. Mas na realidade a aventura mesmo é andar no meio da macacada que está por lá. Eles são notórios por roubarem óculos, comida, ou qualquer coisa que você tiver na mão. E adoram mostrar os dentes e pular pra lá e pra cá, dando a impressão de que numa dessas vêm no seu pescoço. Numa hora tive que cruzar uma ponte que tinha macacos de um lado e do outro, dúzias deles, e a sensação é a de que você está cruzando uma rua perigosa com gangsters de um lado e do outro. Aí você vai devagar, com aquele jeito que quem não quer nada, mas olhando de canto de olho enquanto eles olham você passar, hehehe.
Terminado o passeio por Jodhpur e seus arredores, era chegada a hora de adentrar o deserto pra valer. Lá há basicamente uma cidade, Jaisalmer, e é pra lá que eu fui. Mais cinco horas e meia de ônibus, que dessa vez pareceram durar o dobro. "Pinga-pinga" que não acabava mais no caminho, e um pinga-pinga literal, mais desagradável, de líquidos desconhecidos entrando pela minha janela, vindos de passageiros à frente ou em cima (os ônibus aqui não têm espaço para bagagem sobre os assentos; em vez disso, há uma escadinha e lá em cima há espaço pra a pessoa ir sentada "no chão", junto à vidraça, com uma cortininha pra fechar). E aí lá em cima rola a farofada e tocam os rádios, já que os indianos não têm a menor cerimônia de ligar o radião alto pra o ônibus inteiro ouvir. Quanto aos líquidos que caiam, preferi não pensar muito no que podia ser.
Fim da tarde, cheguei a Jaisalmer. Mais um truque desses de ônibus, pega-turista. O cobrador me inventa, na hora que fui botar a bagagem no fundo: "Tem a taxa de bagagem que são 20 rúpias. Aí, *tapa na lataria do ônibus pra dar efeito*, dou minha garantia que chega lá com segurança". Você vai dizer o que? Afinal era menos de um real. Deixei passar, por mais que desconfiasse que era picaretagem, mas disse que só pagaria na chegada. Foi aí que, em Jaisalmer, o cara do hotel estava lá na parada final e deu um esporro no fulano quando ele veio tentar cobrar a tal taxa. Demos o fora e eu guardei minhas 20 rúpias pra outra coisa.
Finalmente, Jaisalmer, no meião do deserto. Uma cidade toda feita de pedra, arenito amarelo, portanto cor de areia mesmo. A cidade é toda cor-de-deserto. No meio, um imponente forte de 1156.
Jaisalmer é uma cidade divertida de se andar. Parece um video game. Há poucas ruas em que passa carro, e a grande maioria são becos em que há touros/vacas, cachorros, cabras e pessoas circulando. Me perdi várias vezes, mas como a cidade não é tão grande você acaba se achando (embora isso possa levar tipo uma ou duas horas batendo perna à deriva).
Mas é o forte, que é ainda hoje habitado e que conta com sua própria gama de ruas, ruelas e mercados, o ponto alto da cidade, em todos os sentidos. Não houve cimentação, então ele é todo feito simplesmente com uma pedra em cima da outra. Às vezes cai um pedaço, pois ele não foi preparado pra ter gente vivendo com água encanada e esgoto rodando suas estruturas. Então há um trabalho de conservação, mas muito ainda a desejar. Se vê lixo doméstico - e de turistas - por várias partes.
Visitada a cidade, era chegada a hora de concretizar meu plano de passar três dias no lombo de um camelo no deserto, deitando na areia e vendo as estrelas. Continua na Parte 2...
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| Visão de Jodhpur ao entardecer. Última grande cidade antes do Deserto de Thar, no oeste do Rajastão. |
Na parada final eu entendi porque ele havia nos abordado com antecipação. Na hora de descer eu me senti uma celebridade. Na boa, tinha uns oito tuk-tukeiros cercando a porta do ônibus. Não tinha espaço nem pra pisar sem tirar eles da frente. E cadê o fulano que era pra vir me pegar? Tudo o que eu vi foi, no meio do tumulto, um dos tuk-tukeiros com um papel escrito AIRONAL. Nem passou pela minha cabeça que esse era eu; normalmente tem várias pessoas sendo esperadas e tuk-tukeiro de sobra querendo dar golpe, então é bom estar bem certo antes de ir com um deles. Mas ele vem falando: "Bréju! Brejú?".
Já sacaram o que é Breju? Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três... Brasil.
Virei Aironal do Breju, prazer.
Passada a gafe, me instalei em Jodhpur por alguns dias. Grande parte da cidade é de fato bem azul. Mas a visão principal tem cor de rocha, é o imponente forte Mehrangarh, que parece ter saído de O Senhor dos Anéis. (Me fez lembrar Helm's Deep, a fortaleza do segundo filme).
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| O forte Mehrangarh em Jodhpur, Rajastão |
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| Visão do pôr do sol do alto do forte Mehrangarh, em Jodhpur. Os pontos escuros no céu são centenas de pássaros revoando. |
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| Forte Mehrangarh, Jodhpur |
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| Cenotáfio nos Jardins de Mandore, estruturas erguidas em memória de cada um dos antigos marajás da região. Como tumbas, mas sem os restos mortais estarem lá. |
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| A macacada nos Jardins de Mandore. Ágeis e astutos, esses moleques. Olho vivo nos seus pertences. (Não, não pegaram nada meu não, hehe). |
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| Corredor polonês de macacos. É a mesma sensação de estar andando numa rua no meio de uma gangue. |
Fim da tarde, cheguei a Jaisalmer. Mais um truque desses de ônibus, pega-turista. O cobrador me inventa, na hora que fui botar a bagagem no fundo: "Tem a taxa de bagagem que são 20 rúpias. Aí, *tapa na lataria do ônibus pra dar efeito*, dou minha garantia que chega lá com segurança". Você vai dizer o que? Afinal era menos de um real. Deixei passar, por mais que desconfiasse que era picaretagem, mas disse que só pagaria na chegada. Foi aí que, em Jaisalmer, o cara do hotel estava lá na parada final e deu um esporro no fulano quando ele veio tentar cobrar a tal taxa. Demos o fora e eu guardei minhas 20 rúpias pra outra coisa.
Finalmente, Jaisalmer, no meião do deserto. Uma cidade toda feita de pedra, arenito amarelo, portanto cor de areia mesmo. A cidade é toda cor-de-deserto. No meio, um imponente forte de 1156.
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| Vista de Jaisalmer, cidade no Grande Deserto de Thar, Rajastão. O forte data de 1156, quando então a cidade começou a crescer nos arredores. |
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| Típica rua em Jaisalmer, espaço para transeuntes humanos e animais, além de motocicletas ocasionais. As casas melhores sempre construídas acima do nível da rua, pra evitar que entre muita areia. Nas bordas, os esgotos abertos, como de costume nas cidades daqui. |
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| Rua com mercados em Jaisalmer |
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| Companheiros constantes nas andadas pelas ruas de Jaisalmer: cães, cabras e bovinos. Às vezes a educação - e o juízo - pedem que você dê passagem a eles. |
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| Forte de Jaisalmer, de 1156. |
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| Vista de Jaisalmer do alto do forte |
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| Homem do deserto fumando em sua hookah. |
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Indo onde esteve James Bond
Ocidental que se mete em desventuras no terceiro mundo, de quem você lembra? Vai depender do seu imaginário de livros e filmes. Às vezes me dá uma sensação de Indiana Jones ou até Lara Croft quando visito as tumbas, mas no dia-dia da cidade, de me meter em ônibus e barco, é James Bond (007) quem me vem à mente. E desta vez achei de visitar exatamente um lugar onde ele esteve: Udaipur, local do filme 007 contra Octopussy.
Udaipur é a chamada "Lake City", tida como a mais romântica do Rajastão e talvez de toda a Índia. O filme (de 1983) contribui muito pra isso, pra quem viu. Pra quem não viu, não tem problema, os restaurantes pela cidade inteira exibem o filme toda noite. No sul do Rajastão, Udaipur é rodeada de colinas, e com um belo lago no meio onde estão dois palácios, hoje hoteis de luxo. A cidade é também repleta de havelis, que são tipo casas coloniais, em estilo antigo, com arcos, varandas, pátios no meio, etc. Muito charmosas. Boa parte se tornou museu ou hotel/restaurante. Muito bonitos de visitar, e nesse decorrer vocês verão algumas fotos.
Primeiro uma visão geral de Udaipur:
A cidade é agradável de visitar e relativamente boa de explorar a pé (o que é raro na Índia). Nesse caso eu sempre aproveito pra andar à paisana. Hehe, eu explico. Como na Índia o povo fica enchendo (e muito) o saco de turistas pra comprar isso e aquilo, pra dar esmola, pra pepepê e caixa de fósforo, eu às vezes saio disfarçado de indiano. A cara morena já ajuda, com a barba então fica beleza. O traje típico do homem indiano moderno é camisa listrada ou xadrez (daquelas tipo de festa junina) e calça comprida. Fácil. Nem todos caem no disfarce, mas engana a maioria. O problema é que quando eu puxo a máquina fotográfica, quebra o disfarce. Aí tenho que dar o fora. Perco o disfarce mas não perco a foto.
Perto do hotel não dava pra escapar muito, porque me viam entrar e sair. E se você vai num restaurante, é aquela coisa de "depois vá ali na loja do meu amigo". "Venha, venha". Ficavam feito pombos na rua, a conversar de um lado pro outro e pegar quem passa. Foi nessa que conheci Gopal, num restaurante. Diferente do Gopal da novela, esse era mais franzino. Gopal era quieto, às vezes sorria quando se comentava algo, mas não ia muito além disso. Era um faz-tudo no restaurante: recebia as pessoas na porta, trazia o menu, cozinhava e servia. Fui lá duas vezes. Da segunda havia dois rapazes espanhóis, e começamos a fazer graça, e perguntar se não tinha crocodilo no lago (os crocs habitam a região). E olhamos pra Gopal em busca de uma resposta. Gopal olha pra a gente, e olha, e olha... olha fixamente... de repente Gopal cai.
Convulsiona no chão. A gente dá alguma coisa pra ele morder, mas não resolve muito. E o que mais fazer? Ninguém ali era profissional de saúde. Corre alguém pra descer a escadaria e chamar alguém. Leva Gopal de tuk-tuk pra o hospital público. Deu pena. A cozinhazinha dele, de 2x2, vazia. Fazia milagres ali dentro. Ficaria rico em qualquer restaurante no ocidente. Ainda estou devendo 200 rúpias a Gopal.
Os "pombos" que ficavam ali perto do restaurante de Gopal acabaram todos me conhecendo, e pra consolar eu fui na loja de um. Quer dizer, de dois: Joni e Soni. (Se diziam irmãos, mas quase nunca é verdade). Faziam roupas por encomenda. Já era meu dia final, eu partiria de ônibus cedo na manhã do dia seguinte. "Mas a gente entrega no mesmo dia", diz Joni, conversador fiado. Ok. Como o material era bom e o preço barato, aceitei. Ia pegar de tardinha. Mal sabia eu que estava entrando numa barra funda, a là James Bond.
Fui passear. Parte dessas fotos eu tirei ao fazer um passeio de barco no lago com uns franceses. Normalmente, os passeios se encerram de tarde - ou seja, você perde o pôr-do-sol, que é o melhor. Mas na Índia não há regra que não seja flexível, hehe. Estava eu rondando o lugar de onde sai o barco, e um grupo de franceses chega perguntando se não tem mais barco. Já era de tardinha. O cara: "Não não, é só até 5h, voltem amanhã". "Poxa, mas a gente queria fazer hoje". "Não tem mais. Quer dizer, deixa eu dar um telefonema pra ver se não tem mais mesmo". Hehe, não deu outra, arrumaram um barco e eu me juntei. Fomos inclusive a um dos hotéis de luxo bisbilhotar.
Sol se pondo, hora de ir buscar minhas roupas. Chego lá, as roupas estão prontas. Mas aí é que bateu a tentação. "Vou me arrepender de não ter pegado mais", pensei. Só tinha mandado fazer uma camisa. Joni queria que eu fizesse terno, casaco, calça, cueca, o diacho a quatro. "E pelo amor de Deus quando é que tu ia ter tempo de me entregar isso, Joni?". "A gente trabalha de noite", diz ele. Eu fiquei desconfiado, mas queria mais camisas. (Virei meio 'shopaholic' aqui na Índia, com os preços baixos). Falei que só dava metade do $ antes. Aí, como sempre aqui na Índia, depois que você dá o dinheiro vem as coisas: "As camisas ficam prontas hoje de noite, mas pra botar os botões só amanhã de manhã". Faltei meter a mão na cara de Joni. "Não se preocupe não, meu irmão vai lhe levar tudo pronto de manhã no hotel. Seu ônibus é 8h, então 7:30 meu irmão chega lá, a tempo". A essa altura não havia muito o que fazer, a não ser ameaçar dizendo que cabeças iam rolar se esse irmão, Soni, não aparecesse lá. Nisso, Soni chega na loja, e eu falo com o dedo apontado pra ele. "Ok ok, fique tranquilo", ele diz. Hm.
No dia seguinte, já acordei achando que ia fazer churrasco de Joni e Soni. Mas 7:30 Soni estava lá. Soni sim, as roupas não. "Cadê as roupas, Soni?". "Até agora não achei um lugar pra botar os botões, mas agora vai abrir. Vá pra a parada de ônibus que eu te encontro lá antes do seu ônibus sair", diz ele. Eu avisei que perdia o ônibus mas não viajava sem as roupas.
Na parada de ônibus, dá 8h e nada de Soni. O motorista me apressando pra dar a bagagem e entrar. Eu falei que estava esperando alguém, e ligo pra Soni. Ele sugere: "Fica mais perto pra mim alcançar o ônibus numa parada que ele faz na estrada". Ha, essa não, meu camarada. "Nem a pau! Venha onde eu estou que o motorista tá esperando!", "Ok então, tô chegando, 3 minutos e eu tô aí!". Eu digo ao cobrador (tem sempre o figura que pega os tickets e que grita pra pegar mais passageiros na estrada). Sujeito ganancioso. "Três minutos vai custar 50 rúpias". Bah, dois reais, eu queria era as roupas. Liguei pra Soni mais umas quatro ou cinco vezes. 8:20 ele me aparece, e o motorista já bufando, o cobrador comprado por 50 rúpias, e minhas roupas na minha mão. Segui viagem para Jodhpur.

Vídeo feito de uma dança folclórica do Rajastão num haveli, uma das "casas coloniais" de que falei.
http://www.youtube.com/watch?v=GGMFLkr7Xgc
Udaipur é a chamada "Lake City", tida como a mais romântica do Rajastão e talvez de toda a Índia. O filme (de 1983) contribui muito pra isso, pra quem viu. Pra quem não viu, não tem problema, os restaurantes pela cidade inteira exibem o filme toda noite. No sul do Rajastão, Udaipur é rodeada de colinas, e com um belo lago no meio onde estão dois palácios, hoje hoteis de luxo. A cidade é também repleta de havelis, que são tipo casas coloniais, em estilo antigo, com arcos, varandas, pátios no meio, etc. Muito charmosas. Boa parte se tornou museu ou hotel/restaurante. Muito bonitos de visitar, e nesse decorrer vocês verão algumas fotos.
Primeiro uma visão geral de Udaipur:
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| Visão do anoitecer em Udaipur, de um dos hotéis de luxo no centro do lago (Haa, tá pensando que eu não fui no hotel de luxo? Fui sim, de penetra, dei uma volta, senti a ambience e me mandei) |
A cidade é agradável de visitar e relativamente boa de explorar a pé (o que é raro na Índia). Nesse caso eu sempre aproveito pra andar à paisana. Hehe, eu explico. Como na Índia o povo fica enchendo (e muito) o saco de turistas pra comprar isso e aquilo, pra dar esmola, pra pepepê e caixa de fósforo, eu às vezes saio disfarçado de indiano. A cara morena já ajuda, com a barba então fica beleza. O traje típico do homem indiano moderno é camisa listrada ou xadrez (daquelas tipo de festa junina) e calça comprida. Fácil. Nem todos caem no disfarce, mas engana a maioria. O problema é que quando eu puxo a máquina fotográfica, quebra o disfarce. Aí tenho que dar o fora. Perco o disfarce mas não perco a foto.
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| Entrada de um templo no centro de Udaipur |
Convulsiona no chão. A gente dá alguma coisa pra ele morder, mas não resolve muito. E o que mais fazer? Ninguém ali era profissional de saúde. Corre alguém pra descer a escadaria e chamar alguém. Leva Gopal de tuk-tuk pra o hospital público. Deu pena. A cozinhazinha dele, de 2x2, vazia. Fazia milagres ali dentro. Ficaria rico em qualquer restaurante no ocidente. Ainda estou devendo 200 rúpias a Gopal.
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| Visão do palácio da cidade, onde há um museu e onde também ainda mora o marajá de Udaipur |
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| Pátio no interior do palácio |
Os "pombos" que ficavam ali perto do restaurante de Gopal acabaram todos me conhecendo, e pra consolar eu fui na loja de um. Quer dizer, de dois: Joni e Soni. (Se diziam irmãos, mas quase nunca é verdade). Faziam roupas por encomenda. Já era meu dia final, eu partiria de ônibus cedo na manhã do dia seguinte. "Mas a gente entrega no mesmo dia", diz Joni, conversador fiado. Ok. Como o material era bom e o preço barato, aceitei. Ia pegar de tardinha. Mal sabia eu que estava entrando numa barra funda, a là James Bond.
Fui passear. Parte dessas fotos eu tirei ao fazer um passeio de barco no lago com uns franceses. Normalmente, os passeios se encerram de tarde - ou seja, você perde o pôr-do-sol, que é o melhor. Mas na Índia não há regra que não seja flexível, hehe. Estava eu rondando o lugar de onde sai o barco, e um grupo de franceses chega perguntando se não tem mais barco. Já era de tardinha. O cara: "Não não, é só até 5h, voltem amanhã". "Poxa, mas a gente queria fazer hoje". "Não tem mais. Quer dizer, deixa eu dar um telefonema pra ver se não tem mais mesmo". Hehe, não deu outra, arrumaram um barco e eu me juntei. Fomos inclusive a um dos hotéis de luxo bisbilhotar.
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| Hotel de luxo, numa ilha no centro do lago de Udaipur |
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| Ali no meio o outro hotel de luxo, onde Mr. Bond estava e onde rolaram as filmagens |
Sol se pondo, hora de ir buscar minhas roupas. Chego lá, as roupas estão prontas. Mas aí é que bateu a tentação. "Vou me arrepender de não ter pegado mais", pensei. Só tinha mandado fazer uma camisa. Joni queria que eu fizesse terno, casaco, calça, cueca, o diacho a quatro. "E pelo amor de Deus quando é que tu ia ter tempo de me entregar isso, Joni?". "A gente trabalha de noite", diz ele. Eu fiquei desconfiado, mas queria mais camisas. (Virei meio 'shopaholic' aqui na Índia, com os preços baixos). Falei que só dava metade do $ antes. Aí, como sempre aqui na Índia, depois que você dá o dinheiro vem as coisas: "As camisas ficam prontas hoje de noite, mas pra botar os botões só amanhã de manhã". Faltei meter a mão na cara de Joni. "Não se preocupe não, meu irmão vai lhe levar tudo pronto de manhã no hotel. Seu ônibus é 8h, então 7:30 meu irmão chega lá, a tempo". A essa altura não havia muito o que fazer, a não ser ameaçar dizendo que cabeças iam rolar se esse irmão, Soni, não aparecesse lá. Nisso, Soni chega na loja, e eu falo com o dedo apontado pra ele. "Ok ok, fique tranquilo", ele diz. Hm.
No dia seguinte, já acordei achando que ia fazer churrasco de Joni e Soni. Mas 7:30 Soni estava lá. Soni sim, as roupas não. "Cadê as roupas, Soni?". "Até agora não achei um lugar pra botar os botões, mas agora vai abrir. Vá pra a parada de ônibus que eu te encontro lá antes do seu ônibus sair", diz ele. Eu avisei que perdia o ônibus mas não viajava sem as roupas.
Na parada de ônibus, dá 8h e nada de Soni. O motorista me apressando pra dar a bagagem e entrar. Eu falei que estava esperando alguém, e ligo pra Soni. Ele sugere: "Fica mais perto pra mim alcançar o ônibus numa parada que ele faz na estrada". Ha, essa não, meu camarada. "Nem a pau! Venha onde eu estou que o motorista tá esperando!", "Ok então, tô chegando, 3 minutos e eu tô aí!". Eu digo ao cobrador (tem sempre o figura que pega os tickets e que grita pra pegar mais passageiros na estrada). Sujeito ganancioso. "Três minutos vai custar 50 rúpias". Bah, dois reais, eu queria era as roupas. Liguei pra Soni mais umas quatro ou cinco vezes. 8:20 ele me aparece, e o motorista já bufando, o cobrador comprado por 50 rúpias, e minhas roupas na minha mão. Segui viagem para Jodhpur.
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| Taj Lake Palace, onde ocorreram as filmagens de 007 contra Octopussy |
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| Entrada de hotel de luxo no lago |

Vídeo feito de uma dança folclórica do Rajastão num haveli, uma das "casas coloniais" de que falei.
http://www.youtube.com/watch?v=GGMFLkr7Xgc
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