Um par de roupas somente - não haveria porque trocar. Nada de banho por três dias. Nada de banheiro.
Fui em minha nova vestimenta branca, comprada nas mãos de Joni e Soni lá em Udaipur. Mangas compridas e calças compridas também, pra evitar o queimar do sol. Pensei em levar turbante também, hehehe (não, vocês não vão me ver de turbante, haha), cheguei a experimentar alguns em algumas lojas, mas em geral eu não gosto de usar nada na minha cabeça, por tanto fui sem. Tenho cabelo suficiente.
No caminho, no jipe, a primeira coisa que fiz foi tirar o relógio do braço. Desliguei o celular - caso funcionasse pois há torres em Jaisalmer. Pronto, estavam cortadas as ligações com o mundo civilizado.
O jipe seguiu por mais de uma hora numa estrada, pra se certificar que estávamos bem embrenhados no deserto. Thar, o deserto daqui, não é como o Saara. Lembra muito mais aqueles desertos da Palestina que a gente vê em filmes de Jesus na época da Páscoa. Terra seca e pedregosa, mato espinhento, arbustos aqui e ali. Em alguns locais, dunas de areia. E eu de barba e de branco caminhando por lá. Pronto, estava feito o cenário pra a história bíblica.
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| Nascer do sol no Deserto de Thar |
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| O Deserto de Thar |
Jamal, o cameleiro principal, e Armik, seu escudeiro (um garoto de 15 anos) seriam minha companhia pelos próximos dias. Outras agências que organizam isso fazem você ir sentado junto com o cameleiro, pra ter maior segurança. Mas não aqui. Aqui era eu e Deus. No caso, o deus Shiva, que era o nome do camelo que eu peguei. Ledo engano. Minhas mãos ainda estão doloridas e com as cicatrizes de tentar me segurar no lombo de Shiva.
Os primeiros dez minutos em cima do camelo são O cagaço. Você "Pronto, lascou, vou cair daqui de cima". Tem sela mas nenhum lugar firme de segurar. Como você vai na frente do lombo, pra trás você não cai. Por outro lado, capotar pra frente, em cima do pescoço do camelo, é a coisa mais fácil do mundo. E ele arreia sem avisar, ajoelha pra frente e se você não estiver com o corpo todo jogado pra trás, lá vai você. Havia umas sacolas junto da sela, então tentei me agarrar a tudo que pude. Quando o camelo começa a trotar, quem sacoleja é você. É a receita certa para voltar o chai.
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| Jamal (à direita) com um pastor de ovelhas e cabras da região. Atrás, Armik, o escudeiro de Jamal e excelente cozinheiro. |
Quando o sol vai chegando ao topo, é hora de parar, pois fica quente demais (e olhe que não é o verão, aqui agora é meio do outono). Nos ajustamos onde haja alguns arbustos ou árvores pequenas que dêem sombra, e ali a gente se assenta. Eu era o único turista, e Armik não falava inglês, então minha conversa toda era com Jamal. Não era um mau sujeito, mas às vezes meio inconstante. Ele implicou que queria o meu celular pra ele, então no primeiro dia eu me senti igual Frodo seguindo viagem na companhia do Gollum: seguindo por áreas inóspitas e acampando guiado por alguém que estava doido por algo seu. "Posso ver um pouco o seu celular?", "Posso pegar?", "Você não troca ele por alguma coisa não?". Are baba.
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| Dunas de areia no Deserto de Thar |
À noite o melhor de tudo. A lua brilhava forte jogando sua luz na areia. Melhor ainda, após a lua se pôr no meio da noite, as estrelas ficavam ainda mais claras, e a visão do universo era melhor do que nunca.
No segundo dia levantei cedo, antes mesmo do sol. E o nascer do sol é um outro espetáculo. Tomávamos chai com leite tirado das cabras dali mesmo, e fervido nas especiarias. Mais um dia de camelada. Desta vez eu já estava garantido o suficiente pra tirar a câmera do bolso e ir fotografando de cima do camelo.
Inclusive, troquei de camelo. Fui de Shiva para Al Pacino, um camelo mais experiente e cuja sela dava mais estabilidade. Você começa a se sentir já o Sheik das Arábias, hehehe.
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| No deserto. Parecendo personagem de novela espírita da Globo. |
A verdade é que entre andadas pela areia, pela terra pedregosa, e trotadas no lombo do camelo, uma experiência única - dolorida, mas diferente de qualquer passeio mais convencional. Ao final do terceiro dia você está todo quebrado, e as moscas já reconhecem seu suor impregnado. O banho, quando você toma, é quase uma ressurreição de Páscoa, tamanha é a sujeira, o cansaço, e a vontade d´água.
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| Já no terceiro dia |
Água agora é que não vai me faltar. Próximo passo: 30h de trem, de Jaisalmer, a Varanasi, pra me banhar no Ganges no aniversário. Até lá!
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| Al Pacino e o sol. |



















































