terça-feira, 19 de outubro de 2010

Mairon no deserto - Parte 1: Chegando na região

Ônibus para Jodhpur. Finalmente eu estava rumando ao oeste do Rajastão, ao Grande Deserto de Thar, das caravanas, fortes e camelos. Jodhpur, "a cidade azul", fica às bordas do deserto. É a última cidade de porte antes da aridez começar. No ônibus o caminho me já dava uma prévia do que me aguardava. A poeira subia. Eu passava o dedo na cara e sentia a sujeira. Sentia areia até nos dentes, mastigando poeira. Mas o visual da cidade ao entardecer quando cheguei valeu a pena.

Visão de Jodhpur ao entardecer. Última grande cidade antes do Deserto de Thar, no oeste do Rajastão.
Quando o ônibus chegou a Jodhpur era o cair da tarde. Eu havia dado meu nome ao hotel, que supostamente mandaria alguém pra me buscar. Ainda entrando na cidade, numa das várias paradas antes da final na "rodoviária", já um tuk-tukeiro chegou na janela pelo lado de fora, abordando dois franceses (sentados atrás de mim) e eu: "Eu vou seguir o ônibus de vocês até a parada, e chegando lá levo vocês pra hotel, ok?!". Você vai dizer o que? Na prática não foi uma pergunta, foi um anúncio. Pelo menos a parte do "vou seguir vocês". No caminho dei uma olhadela pra trás pra ver se o ônibus tinha despistado o sujeito. Que nada. Ele me vê e ainda dá um tchauzinho, tipo "Ói eu aqui!". Putz.

Na parada final eu entendi porque ele havia nos abordado com antecipação. Na hora de descer eu me senti uma celebridade. Na boa, tinha uns oito tuk-tukeiros cercando a porta do ônibus. Não tinha espaço nem pra pisar sem tirar eles da frente. E cadê o fulano que era pra vir me pegar? Tudo o que eu vi foi, no meio do tumulto, um dos tuk-tukeiros com um papel escrito AIRONAL. Nem passou pela minha cabeça que esse era eu; normalmente tem várias pessoas sendo esperadas e tuk-tukeiro de sobra querendo dar golpe, então é bom estar bem certo antes de ir com um deles. Mas ele vem falando: "Bréju! Brejú?".

Já sacaram o que é Breju? Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três... Brasil.
Virei Aironal do Breju, prazer.

Passada a gafe, me instalei em Jodhpur por alguns dias. Grande parte da cidade é de fato bem azul. Mas a visão principal tem cor de rocha, é o imponente forte Mehrangarh, que parece ter saído de O Senhor dos Anéis. (Me fez lembrar Helm's Deep, a fortaleza do segundo filme).

O forte Mehrangarh em Jodhpur, Rajastão
O forte data de 1459, quando Jodhpur foi fundada. Visto de perto ele é ENORME, e do alto você vê não só a cidade inteira mas também kilômetros além. O melhor era, ao pôr do sol, uma revoada que sobrevoava sempre o forte e dava uma visão interessante, parecendo mesmo de filme de fantasia ou aventura, de pássaros negros voando à frente do sol poente junto a uma fortaleza. Mehrangarh é talvez a fortaleza mais impressionante que eu já vi.

Visão do pôr do sol do alto do forte Mehrangarh, em Jodhpur. Os pontos escuros no céu são centenas de pássaros revoando.
Forte Mehrangarh, Jodhpur
Jodhpur tinha também, nos arredores, os Jardins de Mandore, uma área verde onde estão vários cenotáfios (monumentos fúnebres erguidos em memória de alguém que morreu, mas sem os restos mortais estarem lá, por isso não são tumbas) de toda a linhagem do marajá da região. O visual novamente lembra filmes e jogos de aventura. Mas na realidade a aventura mesmo é andar no meio da macacada que está por lá. Eles são notórios por roubarem óculos, comida, ou qualquer coisa que você tiver na mão. E adoram mostrar os dentes e pular pra lá e pra cá, dando a impressão de que numa dessas vêm no seu pescoço. Numa hora tive que cruzar uma ponte que tinha macacos de um lado e do outro, dúzias deles, e a sensação é a de que você está cruzando uma rua perigosa com gangsters de um lado e do outro. Aí você vai devagar, com aquele jeito que quem não quer nada, mas olhando de canto de olho enquanto eles olham você passar, hehehe.

Cenotáfio nos Jardins de Mandore, estruturas erguidas em memória de cada um dos antigos marajás da região. Como tumbas, mas sem os restos mortais estarem lá.
A macacada nos Jardins de Mandore. Ágeis e astutos, esses moleques. Olho vivo nos seus pertences. (Não, não pegaram nada meu não, hehe).
Corredor polonês de macacos. É a mesma sensação de estar andando numa rua no meio de uma gangue.
Terminado o passeio por Jodhpur e seus arredores, era chegada a hora de adentrar o deserto pra valer. Lá há basicamente uma cidade, Jaisalmer, e é pra lá que eu fui. Mais cinco horas e meia de ônibus, que dessa vez pareceram durar o dobro. "Pinga-pinga" que não acabava mais no caminho, e um pinga-pinga literal, mais desagradável, de líquidos desconhecidos entrando pela minha janela, vindos de passageiros à frente ou em cima (os ônibus aqui não têm espaço para bagagem sobre os assentos; em vez disso, há uma escadinha e lá em cima há espaço pra a pessoa ir sentada "no chão", junto à vidraça, com uma cortininha pra fechar). E aí lá em cima rola a farofada e tocam os rádios, já que os indianos não têm a menor cerimônia de ligar o radião alto pra o ônibus inteiro ouvir. Quanto aos líquidos que caiam, preferi não pensar muito no que podia ser.

Fim da tarde, cheguei a Jaisalmer. Mais um truque desses de ônibus, pega-turista. O cobrador me inventa, na hora que fui botar a bagagem no fundo: "Tem a taxa de bagagem que são 20 rúpias. Aí, *tapa na lataria do ônibus pra dar efeito*, dou minha garantia que chega lá com segurança". Você vai dizer o que? Afinal era menos de um real. Deixei passar, por mais que desconfiasse que era picaretagem, mas disse que só pagaria na chegada. Foi aí que, em Jaisalmer, o cara do hotel estava lá na parada final e deu um esporro no fulano quando ele veio tentar cobrar a tal taxa. Demos o fora e eu guardei minhas 20 rúpias pra outra coisa.

Finalmente, Jaisalmer, no meião do deserto. Uma cidade toda feita de pedra, arenito amarelo, portanto cor de areia mesmo. A cidade é toda cor-de-deserto. No meio, um imponente forte de 1156.

Vista de Jaisalmer, cidade no Grande Deserto de Thar, Rajastão. O forte data de 1156, quando então a cidade começou a crescer nos arredores.
Jaisalmer é uma cidade divertida de se andar. Parece um video game. Há poucas ruas em que passa carro, e a grande maioria são becos em que há touros/vacas, cachorros, cabras e pessoas circulando. Me perdi várias vezes, mas como a cidade não é tão grande você acaba se achando (embora isso possa levar tipo uma ou duas horas batendo perna à deriva).

Típica rua em Jaisalmer, espaço para transeuntes humanos e animais, além de motocicletas ocasionais. As casas melhores sempre construídas acima do nível da rua, pra evitar que entre muita areia. Nas bordas, os esgotos abertos, como de costume nas cidades daqui.
Rua com mercados em Jaisalmer
Companheiros constantes nas andadas pelas ruas de Jaisalmer: cães, cabras e bovinos. Às vezes a educação - e o juízo - pedem que você dê passagem a eles.
Mas é o forte, que é ainda hoje habitado e que conta com sua própria gama de ruas, ruelas e mercados, o ponto alto da cidade, em todos os sentidos. Não houve cimentação, então ele é todo feito simplesmente com uma pedra em cima da outra. Às vezes cai um pedaço, pois ele não foi preparado pra ter gente vivendo com água encanada e esgoto rodando suas estruturas. Então há um trabalho de conservação, mas muito ainda a desejar. Se vê lixo doméstico - e de turistas - por várias partes.

Forte de Jaisalmer, de 1156.

Vista de Jaisalmer do alto do forte
Visitada a cidade, era chegada a hora de concretizar meu plano de passar três dias no lombo de um camelo no deserto, deitando na areia e vendo as estrelas. Continua na Parte 2...

Homem do deserto fumando em sua hookah.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Indo onde esteve James Bond

Ocidental que se mete em desventuras no terceiro mundo, de quem você lembra? Vai depender do seu imaginário de livros e filmes. Às vezes me dá uma sensação de Indiana Jones ou até Lara Croft quando visito as tumbas, mas no dia-dia da cidade, de me meter em ônibus e barco, é James Bond (007) quem me vem à mente. E desta vez achei de visitar exatamente um lugar onde ele esteve: Udaipur, local do filme 007 contra Octopussy.


Udaipur é a chamada "Lake City", tida como a mais romântica do Rajastão e talvez de toda a Índia. O filme (de 1983) contribui muito pra isso, pra quem viu. Pra quem não viu, não tem problema, os restaurantes pela cidade inteira exibem o filme toda noite. No sul do Rajastão, Udaipur é rodeada de colinas, e com um belo lago no meio onde estão dois palácios, hoje hoteis de luxo. A cidade é também repleta de havelis, que são tipo casas coloniais, em estilo antigo, com arcos, varandas, pátios no meio, etc. Muito charmosas. Boa parte se tornou museu ou hotel/restaurante. Muito bonitos de visitar, e nesse decorrer vocês verão algumas fotos.

Primeiro uma visão geral de Udaipur:

Visão do anoitecer em Udaipur, de um dos hotéis de luxo no centro do lago (Haa, tá pensando que eu não fui no hotel de luxo? Fui sim, de penetra, dei uma volta, senti a ambience e me mandei)

A cidade é agradável de visitar e relativamente boa de explorar a pé (o que é raro na Índia). Nesse caso eu sempre aproveito pra andar à paisana. Hehe, eu explico. Como na Índia o povo fica enchendo (e muito) o saco de turistas pra comprar isso e aquilo, pra dar esmola, pra pepepê e caixa de fósforo, eu às vezes saio disfarçado de indiano. A cara morena já ajuda, com a barba então fica beleza. O traje típico do homem indiano moderno é camisa listrada ou xadrez (daquelas tipo de festa junina) e calça comprida. Fácil. Nem todos caem no disfarce, mas engana a maioria. O problema é que quando eu puxo a máquina fotográfica, quebra o disfarce. Aí tenho que dar o fora. Perco o disfarce mas não perco a foto.

Entrada de um templo no centro de Udaipur
Perto do hotel não dava pra escapar muito, porque me viam entrar e sair. E se você vai num restaurante, é aquela coisa de "depois vá ali na loja do meu amigo". "Venha, venha". Ficavam feito pombos na rua, a conversar de um lado pro outro e pegar quem passa. Foi nessa que conheci Gopal, num restaurante. Diferente do Gopal da novela, esse era mais franzino. Gopal era quieto, às vezes sorria quando se comentava algo, mas não ia muito além disso. Era um faz-tudo no restaurante: recebia as pessoas na porta, trazia o menu, cozinhava e servia. Fui lá duas vezes. Da segunda havia dois rapazes espanhóis, e começamos a fazer graça, e perguntar se não tinha crocodilo no lago (os crocs habitam a região). E olhamos pra Gopal em busca de uma resposta. Gopal olha pra a gente, e olha, e olha... olha fixamente... de repente Gopal cai.

Convulsiona no chão. A gente dá alguma coisa pra ele morder, mas não resolve muito. E o que mais fazer? Ninguém ali era profissional de saúde. Corre alguém pra descer a escadaria e chamar alguém. Leva Gopal de tuk-tuk pra o hospital público. Deu pena. A cozinhazinha dele, de 2x2, vazia. Fazia milagres ali dentro. Ficaria rico em qualquer restaurante no ocidente. Ainda estou devendo 200 rúpias a Gopal.   

Visão do palácio da cidade, onde há um museu e onde também ainda mora o marajá de Udaipur



Pátio no interior do palácio

Os "pombos" que ficavam ali perto do restaurante de Gopal acabaram todos me conhecendo, e pra consolar eu fui na loja de um. Quer dizer, de dois: Joni e Soni. (Se diziam irmãos, mas quase nunca é verdade). Faziam roupas por encomenda. Já era meu dia final, eu partiria de ônibus cedo na manhã do dia seguinte. "Mas a gente entrega no mesmo dia", diz Joni, conversador fiado. Ok. Como o material era bom e o preço barato, aceitei. Ia pegar de tardinha. Mal sabia eu que estava entrando numa barra funda, a là James Bond.

Fui passear. Parte dessas fotos eu tirei ao fazer um passeio de barco no lago com uns franceses. Normalmente, os passeios se encerram de tarde - ou seja, você perde o pôr-do-sol, que é o melhor. Mas na Índia não há regra que não seja flexível, hehe. Estava eu rondando o lugar de onde sai o barco, e um grupo de franceses chega perguntando se não tem mais barco. Já era de tardinha. O cara: "Não não, é só até 5h, voltem amanhã". "Poxa, mas a gente queria fazer hoje". "Não tem mais. Quer dizer, deixa eu dar um telefonema pra ver se não tem mais mesmo". Hehe, não deu outra, arrumaram um barco e eu me juntei. Fomos inclusive a um dos hotéis de luxo bisbilhotar.


Hotel de luxo, numa ilha no centro do lago de Udaipur
Ali no meio o outro hotel de luxo, onde Mr. Bond estava e onde rolaram as filmagens



Sol se pondo, hora de ir buscar minhas roupas. Chego lá, as roupas estão prontas. Mas aí é que bateu a tentação. "Vou me arrepender de não ter pegado mais", pensei. Só tinha mandado fazer uma camisa. Joni queria que eu fizesse terno, casaco, calça, cueca, o diacho a quatro. "E pelo amor de Deus quando é que tu ia ter tempo de me entregar isso, Joni?". "A gente trabalha de noite", diz ele. Eu fiquei desconfiado, mas queria mais camisas. (Virei meio 'shopaholic' aqui na Índia, com os preços baixos). Falei que só dava metade do $ antes. Aí, como sempre aqui na Índia, depois que você dá o dinheiro vem as coisas: "As camisas ficam prontas hoje de noite, mas pra botar os botões só amanhã de manhã". Faltei meter a mão na cara de Joni. "Não se preocupe não, meu irmão vai lhe levar tudo pronto de manhã no hotel. Seu ônibus é 8h, então 7:30 meu irmão chega lá, a tempo". A essa altura não havia muito o que fazer, a não ser ameaçar dizendo que cabeças iam rolar se esse irmão, Soni, não aparecesse lá. Nisso, Soni chega na loja, e eu falo com o dedo apontado pra ele. "Ok ok, fique tranquilo", ele diz. Hm.

No dia seguinte, já acordei achando que ia fazer churrasco de Joni e Soni. Mas 7:30 Soni estava lá. Soni sim, as roupas não. "Cadê as roupas, Soni?". "Até agora não achei um lugar pra botar os botões, mas agora vai abrir. Vá pra a parada de ônibus que eu te encontro lá antes do seu ônibus sair", diz ele. Eu avisei que perdia o ônibus mas não viajava sem as roupas.

Na parada de ônibus, dá 8h e nada de Soni. O motorista me apressando pra dar a bagagem e entrar. Eu falei que estava esperando alguém, e ligo pra Soni. Ele sugere: "Fica mais perto pra mim alcançar o ônibus numa parada que ele faz na estrada". Ha, essa não, meu camarada. "Nem a pau! Venha onde eu estou que o motorista tá esperando!", "Ok então, tô chegando, 3 minutos e eu tô aí!". Eu digo ao cobrador (tem sempre o figura que pega os tickets e que grita pra pegar mais passageiros na estrada). Sujeito ganancioso. "Três minutos vai custar 50 rúpias". Bah, dois reais, eu queria era as roupas. Liguei pra Soni mais umas quatro ou cinco vezes. 8:20 ele me aparece, e o motorista já bufando, o cobrador comprado por 50 rúpias, e minhas roupas na minha mão. Segui viagem para Jodhpur.


Taj Lake Palace, onde ocorreram as filmagens de 007 contra Octopussy

Entrada de hotel de luxo no lago




Vídeo feito de uma dança folclórica do Rajastão num haveli, uma das "casas coloniais" de que falei.

http://www.youtube.com/watch?v=GGMFLkr7Xgc

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Ajmer e Pushkar

Hora de mais uma etapa "família" da viagem! Um dos propósitos do tour pelo Rajastão era visitar os pais de um amigo meu lá de Amsterdã, indiano. Conheci os pais dele nesse verão passado e prometi dar um pulo quando viesse aqui à Índia. Voilà, cá vim eu a Ajmer, uma cidade no caminho entre Jaipur e o sul de colinas-e-lagos do Rajastão. Do lado, Pushkar, uma cidade de peregrinos, por ter o único templo da Índia dedicado a Brahma, o deus criador.

No ônibus povão cheguei eu. 1h da tarde. Solzão a pino. A rodoviária, um desbunde. Mal merece o nome de rodoviária. Na prática um terreno, daqueles em que sobe o cheiro de urina seca na poeira, com lixo por toda parte e plástico amassado pelas rodas dos ônibus e já grudado no chão.

A "rodoviária" de Ajmer, no Rajastão. Poeira, sol e calor - com efeitos aromatizantes pela urina e o lixo.
Acha que os ônibus da sua cidade estão detonados? Esse aqui ainda circula. Interurbano.

A família se tratava dos Mathur, um vô boa praça (e relativamente jovem, na casa dos 70 anos e bastante ativo) e a senhora esposa dele, menos liberal, daquelas que ri pra você mas que no fundo são igual avó nordestina conservadora (não é o caso das minhas, mas eu conheço o tipo).

Seu Mathur foi me buscar na "rodoviária". De carro. No caminho, foi o recorde de vacas por km rodado. Nunca tinha visto tantas. O trânsito uma completa zona mais uma vez, só que agora com muitas ruas estreitas, em que motoristas de outra parte do mundo provavelmente jogariam a toalha. (Ah, aqui na Índia não existe o hábito de construir calçadas, então todo mundo anda na rua; da porta da loja você já está na rua).

Tráfego em Ajmer, numa das vias principais.

Tráfego no centro
No labirinto de becos do centro da cidade.
Com esse programa "família", acabei indo numa série de coisas não-turísticas, o que foi interessante. Visitei um debate estudantil em que Seu Mathur estava de jurado, e fui até em aniversário de criança, hehe. No debate uma coisa interessante: antes de começar, um belo ritual com música religiosa e incenso e vela acesos a Sarasvati, a deusa do conhecimento, para iluminar a cabeça dos participantes. Na Índia há também bastante tradicionalismo para separar meninos e meninas, como vocês a essa altura podem imaginar. E todos de uniforme, as meninas de cabeço trançado - nada de balangandans. Me fez lembrar as histórias de minha avó sobre como era a escola no tempo dela. Boa parte dos colégios separa meninos e meninas em turmas diferentes, e há até mesmo colégios dedicados a um só gênero. Eu visitei, por exemplo, o Mayo College, onde Seu Mathur era professor - e ainda conhece todo mundo por lá - e me levou. Só para rapazes. Parece uma Hogwarts, construída no século XIX. É interno, os alunos são separados em Casas e tudo o mais, como em Harry Potter - e como era habitual na Inglaterra.

Mayo College em Ajmer, seguindo a tradição dos colégios internos da Inglaterra vitoriana, do séc XIX. A este prestigiado colégio vinham (e vêm) os filhos dos marajás e outros que podem pagar. Só pra garotos. Mais recentemente, abriu-se uma "filial" para meninas, o chamado "Mayo College para garotas".
Foi nessa área do colégio, mas não nesse prédio principal, que eu participei de um aniversário de criança - filha de uma professora. Cantam todos o "Happy birthday" em inglês, importado dos tempos de colônia. Cortam o bolo, tudo igualzinho. Me disseram que, tradicionalmente, não havia propriamente uma celebração de aniversário; ia-se ao templo, fazia-se uma oração ou ritual pra aquele dia, e talvez algo em casa. Mas certamente há variação regional nisso aí. De todo modo, hoje em dia todo mundo canta o "happy birthday".

Mas o negócio para visitar mesmo em Ajmer é a "Dargah", a tumba de um santo muçulmano do século XII. (Sim, os muçulmanos adoram visitar tumbas e fazê-las monumento). Peregrinos muçulmanos de toda a Índia - e de países vizinhos - vêm até esses becos do centro de Ajmer pra encontrar o caminho até a Dargah. E lá fui eu.

No caminho, eu volta e meia vendo gente trafegando descalço naquele chão e pensando "Afff como é que o cidadão vem pra cá descalço". Heh, mal sabia que o mesmo destino me esperava. Do ladinho, uma verdadeira Veneza de esgotos, com mais canais que Amsterdã, por cada ruela dos dois lados. Às vezes você via também o esgotão jorrando e os porcos-do-mato coletando coisa. De relance que olhei ficou a imagem, agora gravada na memória, de um porcão abocanhando um limão passado que a água suja ia trazendo. Are baba. 

Entrada da área da Dargah, operação tirar os sapatos (e havia ainda uma certa caminhada por becos até chegar na tumba propriamente dita). Um sacerdote muçulmano amigo do Seu Mathur estava lá pra nos assessorar e a gente pegou um atalho pra contornar as multidões vestidas de branco que estava por aquelas ruas apertadas. Na área não era permitido foto, mas havia uma riqueza em revestimentos de ouro e uma bonita prática e jogar pétalas de flores na tumba, e fazer um pedido. Moinuddin Chishti era conhecido como "o benfeitor dos pobres", então na área há um serviço de alimentação gratuita oferecida aos pobres da região, mantido pelos muçulmanos.

Joguei pétalas, tive fitinha vermelha-e-amarela amarrada no braço pelo sacerdote e tudo o mais. O pé fica sujo da rua mas vale a experiência. Naquele mesmo dia, de tardinha, chegava a hora de ir tomar as bênçãos da outra religião, da hindu. Seguimos então a Pushkar, eu e os dois Mathur.

Diz a lenda que Brahma deixou cair uma flor de lótus na terra e a cidade de Pushkar apareceu. Pelo visto acharam de transformar a flor de lóuts em flor de papoula ou de coca, porque a cidade virou point de drogados (muitos turistas inclusive).

Fomos lá de carro, e havia ainda mais bois e vacas do que em Ajmer. Seu Mathur achou de querer estacionar bem onde havia um bovino. Foi se aprochegando e o bicho nem "tchum". Aí é que veio o melhor:

- Mairon, desce aí.
*Mairon desce*
- Faz ele sair aí.
- ?
- Espanta ele.

Minha resposta foi uma cara incrédula. Desculpa mas não me ensinaram a "espantar" um bicho de 500kg e com chifres. Foi uma bela cena de mim batendo palmas, batendo o pé no chão e fazendo coisas do tipo enquanto meio que me escondia atrás do carro vizinho. Deu certo. Devagarzinho o bicho de moveu e Seu Mathur foi estacionando.

Andamos pela cidade, vimos os turistas maconheiros e passamos por muitas barracas vendendo comida em condições de higiene duvidosas. Seu Mathur parou comigo numa que estava particularmente nojenta. Um frigideirão preto de tanto uso, grande que dava até pra abraçar. Várias rodelas de massa boiando num líquido grosso que eu não sabia se era calda doce ou se era óleo velho - ou alguma mistura dos dois. Lá foi Seu Mathur: "Me dê três". Um homem gordo que estava sentado de pernas cruzadas, com o pé sujo perto da frigideirona, fala alguma coisa e lá detrás vem um menino. O menino então com a mão preta de sujeira mete a mão na calda e vai pegando (aqui na Índia ninguém usa guardanapo ou coisas pra evitar contato direto com a comida... é tudo na mãozona mesmo). Foi a gota. "Não compre pra mim não", fui logo dizendo. "Mas essa é a especialidade daqui". Seu Mathur não ouviu nem resposta. Fiz aquela cara de "Nem f*dendo" e ponto.

Em seguida visitamos o Templo de Brahma, mas eu já estava tão embrulhado com a visão daquela comida que nem aceitei a aguinha com açafrão que o sacerdote oferece. O templo bem simples, mas legal. Os templos hindus são bastante coloridos, com chão de lajota, escadarias, um sino pra você badalar e receber boa sorte, e a área central (cercada) onde ficam altares etc., com acesso só aos sacerdotes. Da beira da cerca você se dirige à divindade, faz sua oração etc. Tudo descalço, então tome-lhe um pouco mais de pé sujo no meio do povão, mas nada que um bom banho não resolvesse.

Por fim, no dia seguinte, visitamos alguns outros monumentos de volta a Ajmer: pavilhões de mármore construídos pelo imperador Shah Jahan à beira de um lago no século XVII, e um pequeno monumento a Gandhi, que estava com guirlandas amarelas pois há poucos dias foi o seu aniversário (dia 2 de outubro), e aqui na Índia o aniversário dos mortos é celebrado pondo-se essas guirlandas em voltas dos seus retratos ou estátuas. Encerro portanto com algumas fotos desses locais.




Pavilhões de mármore ao pôr-do-sol. Construção do Imperador Shah Jahan no século XVII, o mesmo que ordenou a construção do Taj Mahal. Foi um dos grandes imperadores mogóis a governar a Índia, e um grande fã de obras em mármore branco, extraído aqui do Rajastão.

Feliz aniversário, Gandhi! Que sua nação consiga superar os males da pobreza e realçar suas belezas, estéticas e filosóficas.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A Índia e as mulheres

Já já continuo a história de minhas andanças aqui pelo Rajastão, mas por agora gostaria de falar um pouco mais sobre algo que tem me chamado bastante a atenção, que é o tratamento dispensado às mulheres aqui na Índia (inclusive às firanghis estrangeiras, portanto, aspirantes a visitar a Índia, atenção).

Eu já havia comentado um pouco sobre como homens e mulheres aqui na Índia são um tanto como mundos separados. As mulheres quase sempre na cozinha e os homens na sala, conversando em separado. Tradicionalmente, a mulher só se serve depois que o homem acabou de comer. Passei por situações em que só depois que eu estava empanturrado é que eu ouvia a mulher dizer: "Então eu posso agora pegar pra mim?". Tive oportunidade recentemente de visitar eventos sociais também, e, na lata: um círculo de cadeiras pra as mulheres, outro para os homens.

Passei por três hotéis até aqui no Rajastão. Uma coisa curiosa: não teve até agora uma única funcionária feminina sequer. Camareiro, cozinheiro, balconista... TODOS homens. As mulheres certamente em casa. Chega até a ser engraçado, ver tipo seis, sete rapazes na cozinha em meio aos pratos. Eu hoje de manhã perguntei aqui, finalmente, "Por que é que só tem homem trabalhando nos hotéis?". O rapaz deu uma risada amarela e desconversou.

O mesmo vale para as lojas e o comércio. Tarefa tradicionalmente masculina. Você muito raramente vê uma atendente ou vendedora. Até hoje, na viagem inteira, só vi duas lojas em que eram mulheres, e uma delas era uma loja de uma cooperativa de mulheres da zona rural - então não podia ser diferente. O tratamento muito diferente: as mulheres sempre mais comedidas, um tanto como atendente de loja aí no Brasil. Muito diferentes dos homens vendedores, sempre espetaculosos, querem saber tudo sobre você, querem que você compre a loja inteira, etc. (sempre com segundas intenções, interessados no seu dinheiro). E se você for turista mulher então, aí pronto, se prepare para o assédio. Dessa parte eu comento de segunda-mão, pelo que ouço das estrangeiras.

No Canadá e da Holanda eu já havia ouvido reclamações de minhas amigas européias, norte-americanas e até japonesas sobre os rapazes indianos em festas etc. "Eles ficam se esfregando", e coisas do tipo. Aqui, as estrangeiras viajando sozinhas estão sempre cheias de histórias pra contar.

Ontem encontrei uma holandesa, então puxei conversa. Estava num desses restaurantes de cobertura (simples, viu gente) com vista para a cidade, havia uns músicos tocando pros turistas no local e eu me sentei onde ela estava. Disse ela que nunca viu tanta tara quanto aqui na Índia - e já viajou por muitos lugares sozinha, inclusive na América Latina, onde os rapazes têm fama de "avançar" - mas nada comparado aos daqui. Me contou que outro dia estava no tuk-tuk e o motorista ficava, pra chamar a atenção dela e perguntar algo, dando tapinhas no joelho e nas pernas dela. De repente, tomou outro caminho, parou e perguntou: "Você quer fazer sexo?". Ela ia já descendo do tuk-tuk, aí o cara reconsiderou "Não não não! Ok ok, desculpa". Disse que na rua não param de mexer no cabelo dela, louro, e que até pegada no peito já levou.

Ouvi coisas parecidas de uma moça dos Estados Unidos (mulata, pra não pensarem que é só com loiras). Foi bulinada no trem por um cara que estava sentado do lado, com os braços cruzados, e com a mãozinha ali por debaixo do braço ia acariciando ela. Are baba.

A impressão que eu tenho é que aqui a distância entre homens e mulheres deixa muitos caras meio bitolados e demais "na sede". E, sem prática de interação, fica essa coisa quase canina. Somado a isso a imagem das ocidentais de mais liberais, pronto. (Até onde eu sei e vi, os rapazes de países árabes do norte da África também não são muito diferentes disso não - outra sociedade altamente dividida). Os leitores psicológos aí podem explicar melhor.

Então, amigas firanghis estrangeiras, é altamente recomendado trazer uma companhia masculina quando quiserem vir à Índia - irmão, amigo, namorado, vale qualquer coisa. Nesse caso não há desrespeito porque os bulinadores sabem que se bobearem levam um sopapo.

Não é à toa que a Índia é campeã em movimentos que lutam por questões de gênero e por mais respeito às mulheres. Aqui no Rajastão o índice de analfabetismo entre mulheres é o dobro que entre os homens.

No sul da Índia, contam que há áreas de tradição matriarcal e que lá as mulheres é que ditam a norma. Mas isso eu ainda vou verificar mais pra frente, e conto pra vocês.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Era uma vez no Rajastão

Há mais de 1000 anos, nas proximidades desta região junto ao Grande Deserto de Thar, começaram a se formar domínios de bravios reis-guerreiros. Eram os Rajputs, orgulhosos e belicosos, que diziam originar-se do sol, do fogo, e da lua. Em seus robes cor de açafrão, brincos de ouro e turbante, marchavam à luta mesmo que a derrota fosse certa - neste caso, sua família inteira atirava-se ao fogo para partir junto com o seu senhor. Os rajputs eram tão árduos que detiveram o avanço de invasores islâmicos por mais de 500 anos. Fizeram esta terra ser conhecida como "A Terra dos Rajs", ou Terra dos Reis, o Rajastão.

Era já perto das 6 da tarde quando meu louco ônibus ia chegando. Aqui cedo o sol de põe. Por esse horário já eram os últimos raios na muralha cor-de-rosa de Jaipur, a capital. Do lado de fora, o que se tornou a cidade pós-colonialismo: crescimento desgovernado, falta de infra-estrutura, pobreza. Do lado de dentro, o mundo é cor-de-rosa, literalmente. Muitos dos prédios da cidade são em arenito róseo, e os demais, a maioria, foram todos pintados de um rosa cor de goiaba - e assim o são desde 1876, quando o então rajput Marajá Ram Singh, que governava esta região sob a supervisão dos ingleses, resolveu que toda a cidade seria pintada com "a cor da hospitalidade" para a visita do Príncipe de Gales, que viria a se tornar o Rei Edward VII da Inglaterra.


Entrada do centro de Jaipur

Essa doçura com os ingleses não foi à toa. Os Rajputs, sempre brigando entre si, acabaram cedo ou tarde subjugados pelo Império Mogol (islâmico) nos idos do Séc XVI, e ficaram como vassalos do imperador. Com a aparição dos ingleses e os mogóis perdendo força, os rajputs viram logo a oportunidade de dar o golpe. Resultado: deram fim nos mogóis, e os rajputs retomaram o controle da região, ainda que sob supervisão comercial inglesa, que tirava uns lucros enquanto fazia indulgências aos marajás.

(Aqui vale uma nota de esclarecimento. "Marajá", ou "maharaja" nas línguas da região, são os rajputs - ou reis - de mais alto grau. Havia uma série de rajputs vassalos, e sub-vassalos, estilo Idade Média européia em que haviam reis, príncipes, duques, condes, etc. - toda uma hierarquia).

Em Jaipur, praticamente a cidade inteira é cor-de-rosa, e o desenho da parte central foi todo feito de acordo com um antigo tratado (no sentido de "obra escrita", não de "acordo") hindu de arquitetura, Shilpa-Shastra. Blocos retangulares e avenidas amplas recheadas de bazares, cada uma dedicada a uma espécie de produtos - tecidos, joalheria, alimentos, etc. Hoje, claro, "tá tudo dominado", e as ruas são um caos completo. A fauna de que falei no post anterior não entra tanto aqui, exceto pela boiada, que com uma tranquilidade búdica - como os donos da rua - passeiam numa boa no meio dos carros e carroças.

Na cidade meu guia foi o primo do marido de uma amiga minha. (Hehehe, a vida se faz formando relações, hehe). Perguntei a ele se as vacas não ficam agressivas de vez em quando. "Às vezes", diz ele. E elas têm chifres! Na novela botaram aquele novilho, provavelmente com medo que Tony Ramos tomasse uma chifrada, mas aqui as vacas e touros têm chifres bem avantajados. O que eu vi foi fulaninho tentando laçar vaca sem sucesso, e a vaca se afastando no meio do trânsito - que pára para bovinos mas não para humanos - aí fica o cara lá olhando de longe a vaca se distanciar do outro lado da rua, hehe.

No centro de Jaipur, o Palácio da Cidade, onde ainda hoje mora o marajá, alto rajput da região. Sim, eles ainda existem. Não têm o mesmo poder político de antigamente, mas são ainda influentes e ricos. Na rua, os homens do Rajastão, aqueles de famílias originárias daqui, quase todos usam um brinco de ouro - visto em nenhuma outra parte da Índia. Os homens mais velhos também tem bigodes frequentemente avantajados, e às vezes um turbante de determinada cor. Antigamente, a cor indicava qual era a sua região de origem dentro do Rajastão.

Patio central no palacio de Jaipur.
Nessa onda, vi até um homem andando com a cimitarra embainhada na rua - sem brincadeira. E aí é que entra a tradição dos Rajputs: eles, a polícia não pára por andar armado. Às vezes eles mesmo se tornaram a polícia. Mas meu amigo não era tão tradicional assim. Resolveu almoçar aonde? McDonald's. Are baba.

Como já tinha me ajudado tanto, não quis criar caso. Aqui na Índia não tem BigMac, o número 1 é o McVeggie. Hehehe. Não servem nada que tenha carne de boi ou porco (esse por causa dos muçulmanos da região, que não comeriam no estabelecimento se lá fosse servido carne de porco). E estava com meu McVeggie, comendo no McDonald's depois de um longo tempo, logo na Índia...

Mas nesse dia nós ainda visitamos muito mais coisa. Pegamos um certo congestionamento no caminho...

No meio do caminho havia mais do que uma pedra - havia um elefante.

...hehe, mas aonde fomos chegamos a tempo. Fomos ao Amber Fort, nas colinas próximas à cidade. (Não, não quer dizer "forte de âmbar", o nome Amber vem da deusa Amba, homenageada quando o forte foi construido em 1592, antes de Jaipur existir).

Vista do Amber Fort
Patio de entrada do Amber Fort. A subida de elefante se tornou popular entre turistas, mas eu não usei. Estavamos de carro, alem disso o bem-estar dos elefantes nesse sobe-e-desce o dia inteiro debaixo do sol é duvidoso.

O forte fica no alto das colinas, de onde a área era governada antes de Jaipur ser fundada (em 1727). De um lado, o Portão do Sol, a entrada do leste. Do outro, o Portão da Lua, que leva à vila que se formou nesses arredores, com templos e comércio. No interior do forte também muitas áreas, como jardins, pavilhões, torres e uma série de câmaras revestidas de milhares de pedacinhos de espelho.



O lugar é mágico, faz você se sentir naquela época dos aventureiros e caravanas do deserto. Lembra um filme de Aladim ou alguma coisa assim. Pra sentir ainda mais a magia da região, confere esses aí abaixo. Primeiro, o Hawal Mahal, ou Palácio do Ar, construído pelo rei local para que as mulheres da realeza pudessem observar toda a vida lá nas ruas da cidade. O nome vem das várias entradas de ar nessa fronte do palácio.

Hawal Mahal, ou Palácio do Ar, no centro de Jaipur.

E por fim o Palácio das Águas, Jal Mahal, uma morada sobre o lago.

Jal Mahal, ou Palácio das Águas, nos arredores de Jaipur

E a jornada pelo Rajastão continua; primeiro rumo ao sul, dos lagos e colinas, e em seguida, finalmente, a oeste, na direção do Grande Deserto de Thar.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Escapando de Délhi


Neste momento, os indianos estão numa mistura de euforia e stress. Esse domingo, dia 3, começam os Commonwealth Games 2010 em Nova Délhi (tipo um "jogos pan-americanos" entre as ex-colônias da Inglaterra). A cidade, que já é surtada com medo de ataque terrorista, duplicou a segurança e resolveu decretar estado de alerta vermelho. Resultado, as ruas estão parecendo um canteiro de obras militarizado. (Ah, claro, as obras não acabaram a tempo e agora eles estão correndo contra o relógio... essa semana teve pedaço de estádio caindo e tudo o mais...).

Sem brincadeira, há verdadeiras trincheiras na rua, sacos de areia empilhados ao redor de soldados - que habitualmente já carregam fuzis pela cidade igual em metrô da zona norte do Rio de Janeiro. A vida em Nova Délhi, em termos de segurança, já é uma realidade saturante. Como eu disse, não é crime de rua, é medo de terrorismo. Então parece aeroporto, todo dia. Você entra no metrô, detector de metal, aí o soldado tem que também abrir a bagagem que você está carregando, vistoriar, etc. A mesma coisa pra entrar em qualquer shopping. Somado a isso, lojas, qualquer uma que seja um pouco mais arrumadinha tem segurança que controla sua entrada e saída e o que você está levando. Isso é o normal. Agora em estado vermelho ficaram ainda mais chatos. Agora às vezes põem dois soldados pra verificar você, um depois o outro, caso o primeiro tenha sido descuidado na averiguação. Andando na rua em alguns lugares parece que tem mais militar do que civil. Não quero nem ver quando os jogos começarem... Hora de dar o fora.

Levantei hoje de manhã já pra dar tchau ao Seu Bhalla e me mandar pro Rajastão, estado aqui do noroeste do país, perto da fronteira com o Paquistão (ok ok ok, também não é o lugar com maior fama de pacífico, mas a área complicada é a Caxemira, que fica lá pro norte, longe daqui. Rajastão é sossegado). É o chamado "estado desértico" da Índia, por onde passavam as caravanas de especiarias rumo à Pérsia e ao ocidente nos tempos de antigamente. (Ah! Foi aí também que se passou a novela, nesse estado)

São algo como 6h de viagem de Delhi até Jaipur, a capital do Rajastão. Podia muito bem ir de trem com ar condicionado, mas achei que seria impessoal demais. Resolvi pegar o ônibus "povão". Seis reais a passagem, hehehe. Seu Bhalla me botou no tuk-tuk e lá fui eu à "estação" de ônibus, que se revelou ser um acostamento na pista onde tem o tiozinho gritando "Jaipur, Jaipur, Jaipur!!". Fui entrando e lá vamos nós. Ônibus até confortável, preciso dizer. Mas aí o povão é aquela muvuca. Primeiro, a música alta que foi um verdadeiro batidão dentro do ônibus, aqueles "techno-místico" à là indiana. Segundo, a farofada, só que em vez de galinha é prantha e grão-de-bico no molho (pra passar no pão), etc. Aí depois lambe os dedos sujos de óleo e depois limpa na poltrona (ou vice-versa), as moscas passeando... E terceiro, é igual ônibus barato no interior aí no Brasil: vai gente em pé, a galera vendendo coisa no corredor do ônibus, pela janela... hehe, aquela coisa.

Meu assento estava confortável, mas como nada é perfeito, na última hora de viagem entrou uma tia, rodou virou, e chega pra mim e fala: tmzepidm cjslkdpo jkcsa. Algo em hindi (ou Rajasthani, que é o que eles falam no Rajastão). Eu faço aquela cara de "Oi?". Ela fala em inglês: "Eu quero sentar aqui". O que é que você faz? A tia já meio pesada, carregando coisa, eu "ah, vai" - pensei. Ia levantando pra dar lugar, afinal estava perto de chegar. Mas aí ela me volta pra a cadeira. "Não não, você pode ficar aí. Cabe os dois". Pronto. Próximos 60 minutos fui espremido entre a tia e a janela. Mas pelo menos deu pra trocar um papo e pegar umas informações sobre a cidade.

Como acabei de chegar, estou ainda pra descobrir as coisas. Mas posso dizer que as ruas de Jaipur são dotadas de incrível fauna: cabra, cachorro, cavalo, camelo, vaca e porco do mato. Tudo isso no meio do povo. Pra quem quiser sacar o ambiente do ônibus, eu fiz dois videos curtos.

http://www.youtube.com/watch?v=_ayF9q5a9ng

http://www.youtube.com/watch?v=H3XJrfZdIiY


Vista da beira da estrada e ruas laterais, no caminho de Délhi para Jaipur, de ônibus.